"Diversificação é a palavra chave para reduzir os impactos da crise"
Aliada as notícias sobre a atual crise americana, a divulgação do levantamento realizado pelo Goldman Sachs (maior Banco de investimentos do mundo), mostrando que várias nações europeias devem mais de 90% de tudo o que produzem ao longo de um ano, está comprovado que vivemos em uma economia plana, e que não vivemos crises isoladas, um mercado influencia o outro.
Diante disso, é necessário ter em mente que os últimos acontecimentos na economia global, e a crise que atualmente aflige os EUA, poderão influenciar o país, o Rio Grande do Sul e também a região.
Conforme a doutoranda em Finanças pela Unizar - Espanha e professora da Fahor, Catia Felden Bartz, o Tesouro norte-americano, assim como outros países (inclusive o Brasil), emite no mercado financeiro, papéis respaldados pelo governo, com o objetivo de financiar as atividades do governo federal, como pagamento de funcionários e fundos de previdência. “No EUA, os títulos são conhecidos como treasuries, comprados por investidores do mercado financeiro que são remunerados com juros. Os títulos americanos são considerados os mais seguros do mundo e, por isso, atraem tantos investidores interessados em comprar esses papéis”.
Na análise da profissional, o alto nível de endividamento dos EUA ainda reflete, entre outros fatores, efeitos da “ressaca” da crise financeira desencadeada em 2008 pela quebra do Banco Lehman Brothers. “Diante de um cenário de recessão, um país demanda de mais dinheiro para estimular a economia. Com o aumento dos custos públicos (pagamento de benefícios sociais como seguro-desemprego, mais necessários em épocas de demissões e cortes de pessoal) e redução de receitas (isenção e redução de alguns impostos para evitar a falências de empresas e bancos) o governo dos EUA emitiu mais papéis para ter dinheiro e evitar o colapso financeiro do país”.
A estratégia, de socorrer setores da economia que estavam em risco de falência endividou não só os EUA, mas também outros países que hoje enfrentam problemas com a dívida. Outro fator que ajudou a desencadear a crise americana, de acordo com Catia, foram os altos investimentos, ao longo dos anos, para financiar guerras e ações militares. “Não podemos deixar de mencionar ainda os jogos políticos, a oposição republicana ao governo atual e a intenção de Obama a reeleição, dificultam com certeza os acordos no parlamento. A oposição está exigindo cortes na economia, que com certeza irão afetar a popularidade do atual presidente”.
Principais impactos para o Brasil e região
Para Catia, os principais impactos do momento econômico e um eventual calote ou a incerteza a condição financeira dos EUA, com certeza devem acarretar impactos na economia brasileira, no entanto, atualmente, a economia brasileira vem apresentando solidez e estabilidade. “O saldo positivo da balança comercial e o acúmulo das reservas cambiais ajudam a minimizar o impacto das crises internacionais. A projeção dos impactos da crise americana no Brasil é difícil de serem previstas, pois não se sabe quanto tempo os EUA vai precisar para ajustar as contas”.
Segundo a professora, o nível de desemprego no Brasil nunca esteve tão baixo (6%) e a renda do brasileiro nunca foi tão alta. Este cenário, na avaliação dela, fez surgir uma “nova classe média” no Brasil, que fortaleceu a economia, pois gasta a renda internamente. “As exportações do Brasil representam menos de 15% do PIB, com um mercado interno fortalecido e com reservas cambiais, acredito que os efeitos nesta crise não causarão impactos que poderão desestabilizar a economia brasileira. O Brasil, mesmo apresentando uma economia fortalecida, possui duas portas de entradas para os impactos da crise americana. A primeira é representada pelo mercado financeiro, através da fácil mobilidade do fluxo de capitais, com as negociações de ações na bolsa de valores e também de títulos da dívida pública brasileira. No mercado financeiro é onde os impactos são mais imediatos, pois uma de suas características é alta volatilidade”.
A segunda porta, conforme Catia é representada pelo comércio internacional. “Os impactos são de curto e médio prazo, as incertezas internacionais poderão reduzir a demanda por produtos brasileiros. Atualmente as commodities representam aproximadamente 71% das exportações brasileiras, produtos estes os quais não se pode controlar os preços. E é nesta situação que nossa região poderá ser afetada, pois a soja é uma das principais commodities exportadas pelo Brasil”.
De acordo com Catia, outros impactos que poderão ser enfrentados no Brasil, e na região, é o aumento da inflação que causaria aumento dos juros para controlar os preços. Caso a crise permaneça, os capitais excedentes serão destinados a países que apresentam maior credibilidade, como o Brasil, resultando em queda do dólar. “Atualmente o governo brasileiro possui cerca de R$ 1,1 trilhão para proteger a economia dos efeitos de um agravamento da crise internacional. Este valor é constituído por dinheiro que o Tesouro Nacional tem em caixa para rolar a dívida pública, pelos depósitos compulsórios do Banco Central e pelas reservas cambiais. Esse valor é 40% maior que o valor disponível que o Brasil dispunha para enfrentar a crise de 2008”.
Para se proteger da crise, ela destaca que não tem receita, mas alternativa já que numa economia global, não se pode pensar em ações isoladas e de curto prazo. “A diversificação para fechar as ‘duas portas’ de entrada dos impactos da crise é sempre a alternativa mais inteligente para reduzir os riscos”, finaliza.