Cooperjornal

Enxurrada provoca emergência na região

01/11/2008 - Há um ano das tempestades que assolaram a região, cidades da Fronteira Noroeste voltaram a sofrer com o mau tempo em outubro. As chuvas fortes que atingem a região desde a manhã do sábado, 25 de outubro, ainda preocupam moradores e autoridades. Além de deixar cerca de 400 pessoas desalojadas em Santa Rosa, alagar casas, destruir lavouras de trigo e danificar telhados com pedras de granizo e ventos fortes, o mau tempo fez com que o rio Uruguai chegass, até ontem, ao maior nível registrado pelo menos nos últimos dez anos.

Em Santa Rosa, a chuva do sábado atingiu pelo menos 12 vilas da cidade. A enxurrada fez o prefeito Alcides Vicini decretar situação de emergência no município. Em todo o estado, até ontem 14 municípios – entre eles Cerro Larg, também no noroeste – viviam sob a emergência por causa das chuvas que, segundo a meteorologia, devem dar uma trégua à região até a próxima semana.

Granizo danifica 250 casas em Cerro Largo
Em Cerro Largo, o granizo que caiu no sábado pela manhã danificou o telhado de cerca de 300 casas da zona urbana da cidade. A Defesa Civil esteve no local para avaliar os estragos. Lonas foram distribuídas aos moradores que tiveram prejuízos e o prefeito Adair José Trott (PP) decretou situação de emergência. Dez famílias ficaram desabrigadas e passaram a noite no Parque Municipal de Exposições.

Castigado pelo granizo no sábado, Cerro Largo teve transtornos isolados a partir da madrugada da quarta-feira com a volta da chuva, quando as precipitações atingiram o município novamente. Começou a chover de madrugada e só parou às 14h. Porém, não há desabrigados. A água chegou a entrar em residências que estavam cobertas por lonas. O município permanece em situação de emergência.

Cheia provoca suspensão de travessia em Porto Mauá
A travessia por balsa entre Porto Mauá e o município de Alba Posse, na Argentina, está interrompida desde a terça-feira, 28 de outubro, quando o rio Uruguai atingiu 9,40 metros acima do nível normal. Esta é uma das conseqüências mais prolongadas das chuvas intensas que castigam a região desde o sábado, 25. Até ontem, o nível do rio havia subido quase 12 metros acima do normal. Além de alagar ruas e invadir casas, deixando prejuízos submersos, as cheias prejudicam a travessia. O último informe apontava que o rio está 11m40cm acima de seu nível normal, e o transporte entre a cidade gaúcha e a argentina deve se manter suspenso até que o rio baixe pelo menos 3 metros. A água já ultrapassou a aduana, chegando na rua principal da cidade, e ameaça estabelecimentos comerciais. As estradas de chão que costeiam o rio, ligando o município a Alecrim e a Novo Machado, permaneciam interrompidas até ontem. Desde a quinta-feira, o transporte de passageiros – único que ainda é realizado – é feito somente por meio de lanchas. O serviço de balsa, que transporta principalmente caminhões, está suspenso porque a embarcação não tem onde atracar devido ao volume de água.

Segundo as autoridades da Marinha, as travessias poderiam ser feitas sem sobressaltos com o rio até 10,8 metros acima do nível, conforme acordo estabelecido em 2007. Mas, por conta de reformas na aduana do lado argentino, o máximo permitido para que os passageiros consigam desembarcar em Alba Posse é de 8 metros acima do nível normal. A expectativa das autoridades era retomar o transporte na quinta-feira, mas o retorno das chuvas um dia antes manteve o leito do rio acima do nível normal. Até ontem, a expectativa era que o nível do rio poderá crescer ainda mais e ultrapassar os 12 metros. As últimas enchentes haviam ocorrido em 2007. Em 23 de maio daquele ano, o rio atingiu 10m70cm acima do nível normal. Dois meses depois, o Uruguai subiu até atingir 9m65cm acima do nível. Em Porto Soberbo, em Tiradentes do Sul, o transporte de veículos por balsa não é realizado também desde a terça-feira. A travessia de pessoas está mantida, por lancha, mas há a possibilidade de o serviço ainda ser suspenso.

Pela falta de navegabilidade do Rio Ijuí, o serviço de balsa implantado pela Eletrosul em Roque Gonzales foi suspenso. O transporte havia sido disponibilizado gratuitamente à população em razão das obras na ponte da rodovia São Luiz Gonzaga-Roque Gonzales (RS-168). Para viabilizar o trânsito neste período de cheia, a ponte foi liberada em meia pista. Assim que o volume de água baixar, o serviço por balsa voltará a funcionar durante as 24 horas por dia e a obra no local será retomada. A ponte vai ser elevada em 1,5 metro de altura para não ficar submersa pelo lago que será formado após a conclusão da Usina Hidrelétrica Passo São João.

Chuva invade casas e deixa 400 desabrigados em Santa Rosa
As chuvas do sábado, 25 de outubro, deixaram mais de uma centena de famílias desabrigadas e fizeram com que Santa Rosa – o município que apresentou as mais graves conseqüências do mau tempo na região – decretasse situação de emergência na segunda-feira, 27. Cerca de 400 pessoas tiveram que sair de casa para fugir da invasão das águas que transbordaram do rio Pessegueiro e de seus afluentes. Acolhidas na emergência no ginásio de esportes do Centro Integrado de Educação Pública (Ciep), em núcleos comunitários e mesmo em capelas, elas começaram a semana limpando as casas, retirando entulhos e contabilizando prejuízos para poder voltar para casa.

Soldados do Exército e do pelotão ambiental da Brigada Militar, bombeiros e voluntários trabalharam no socorro às famílias atingidas pelo temporal. Segundo a Defesa Civil do estado, em alguns locais choveu cerca de 160 mm entre o sábado e o domingo, 26. O presidente da Coordenadoria Municipal de Defesa Civil de Santa Rosa, Eduino Lorentz, afirmou que em alguns locais do município chegou a chover 130 milímetros em quatro horas. A cheia é considerada uma das mais intensas em pelo menos uma década. A anterior havia sido registrada em 2003.

Com a enxurrada, que começou por volta das 9h do sábado, as águas do rio, da Sanga do Inácio e dos lajeados Pessegueirinho e Paulino provocaram alagamento em cerca de cem casas em pelo menos 12 vilas, como a Auxiliadora – onde um barco da Patrulha Ambiental (Patram) foi utilizado para resgatar os moradores –, Balneária, Bomba, Winkelman, Piekala e a Vila Nova, deixando cerca de 40 famílias desalojadas.

Além da Patram, outros cinco barcos e alguns particulares participaram das operações que envolveram os bombeiros, a prefeitura, militares e voluntários, que auxiliaram no resgate das pessoas e na retirada de objetos das casas alagadas. A prefeitura distribuiu lonas para a cobertura das residências e, no início da semana, a Defesa Civil enviou para o município cem cestas básicas, 300 colchões, 240 cobertores e kits de limpeza. Os moradores atingidos fizeram fila na secretaria da Assistência Social para receber os materiais. No final de semana, as famílias atingidas já haviam recebido doações da comunidade. A chuva, que voltou na quarta-feira, 29, não alterou o volume dos rios da cidade.

Além de Santa Rosa, outras 13 cidades no estado já decretaram a emergência em conseqüência das chuvas. Cerro Largo, também no noroeste do estado, Venâncio Aires, Estrela, Colinas, Arroio do Meio, Encantado, Muçum, Santa Tereza, Bom Retiro do Sul e Cruzeiro do Sul também vivem sob o decreto de emergência.

Durante a semana, a trégua da chuva possibilitou a retomada da normalidade nos municípios atingidos. De acordo com o coordenador regional da Defesa Civil, capitão Luis Fernando Santos Carlos, dos aproximadamente 5,5 mil desalojados registrados em todo o estado, mais da metade ainda permanecia nessa situação até a quarta-feira, 29.

Três de Maio sofre com alagamentos e vento e granizo prejudicam o interior
A uma semana de completar um ano do vendaval que provocou destruição na cidade, Três de Maio volta a sofrer com o mau tempo. Desta vez, não foi o vento, mas a água das chuvas e o granizo foram os responsáveis pelos danos.

Pouco mais de 120 milímetros de chuva em seis horas deixaram um rastro de prejuízos em bairros e vilas de Três de Maio. Ainda que em menor proporção que em Santa Rosa, as chuvas invadiram casas e destruíram móveis e eletrodomésticos em casas dos bairros Glória, Oriental e uma parte do Guaíra e nas vilas Cobrinha, Pedreirinha e Vila Nova.

Dezenas de moradores tiveram suas casas alagadas e foram obrigados a sair, mas a situação foi normalizada com mais rapidez. Os lajeados Morangueira, Cachoerinha e Quarainzinho transbordaram e provocaram cheias em diversos córregos que cortam os locais mais baixos da cidade.

O Corpo de Bombeiros Misto acionou 20 homens distribuídos em quatro equipes, e funcionários da prefeitura e voluntários percorreram as áreas atingidas durante o final de semana para ajudar as famílias. Em muitos casos, o acúmulo de lixo, que teria provocado o entupimento de bueiros, impedindo a vazão da água, foi apontado como a principal causa dos alagamentos. Em alguns locais, as ruas e quintais acumulavam barro até dois dias após as chuvas, transformando a paisagem junto com os objetos deixados para secar ao sol.

No interior, foram registrados outros fenômenos. No km 6, junto com a chuva, fortes ventos e granizo deixaram suas marcas: algumas lavouras de trigo apresentaram perdas. A ventania assustou os moradores, pouco menos de um ano depois que um vendaval provocou destruição no município. Na localidade de Mato Queimado, os moradores ficaram assustados com a chuva de granizo, que provocou destelhamentos.

Chuvas crescem 37% em relação a 2007
Mesmo com a previsão de poucas chuvas para o final do ano, 2008 já pode ser considerado um ano chuvoso. Até outubro, choveu 1.852,4 milímetros em Três de Maio, um aumento pouco maior que 37% em relação ao mesmo período do ano passado, quando foi registrado um volume de 1.351,1 milímetros. O sábado, 25, registrou um volume recorde de chuvas em um único dia. Os exatos 121,2 milímetros verificados no dia fizeram o volume de chuvas do mês de outubro registrar um volume próximo dos 410 milímetros, superior a média histórica no município.

Prejuízos nas lavouras de trigo fazem expectativa diminuir
Em todo o estado, a chuva intensa do final de outubro prejudicaram a colheita do trigo, que deverá apresentar, segundo o Ministério da Agricultura, uma perda total de mais de 30% nesta safra. A expectativa de colher mais de 2 milhões de toneladas do grão foi reduzida para 1,78 milhão por conta do mau tempo. Na região, a perda pode ser ainda maior. Segundo o Escritório Regional da Emater, em Santa Rosa, mesmo que os agricultores que foram afetados por alguma intempérie consigam uma boa produtividade de grãos na safra, a qualidade do trigo pode ficar bem abaixo da média, desvalorizando o preço.

Em Três de Maio, a queda de granizo nas localidades de Km 6, Lajeado Cachoeira, Lajeado Lambedor e Mato Queimado dizimou lavouras inteiras. O agricultor Aloísio Pedó, morador do Km 6, teve a lavoura de 13 hectares plantados com trigo atingida pelo granizo no sábado, 25 de outubro. A perda na lavoura é total. Em torno de 12 famílias da localidade apresentaram danos nas plantações devido ao temporal de granizo. O agricultor calcula um prejuízo de R$ 20 mil nas lavouras. Antes da chuva, de acordo com o agrônomo Claudemir Ames, responsável pelo escritório local, cerca de 55% da área plantada no município havia sido colhida antes da chuva, registrando uma produtividade entre 40 e 70 sacas por hectare. Desde lá, as lavouras colhidas têm registrado em média 20 sacas por hectare.

Com essa análise já é grande a procura dos agricultores pelo Proagro trigo, para tentar abater um pouco do prejuízo com o seguro. Mais existem ainda os casos mais graves, como o do agricultor Aloísio Pedó, morador do Km6 em Três de Maio. Ele teve a lavoura de 13 hectares plantados com trigo atingida por um temporal de granizo, na madrugada do sábado 29 de outubro. A perda na lavoura é total. Em torno de 12 famílias do Km6 tiveram danos nas plantações devido ao temporal de granizo. O agricultor calcula um prejuízo de R$ 20 mil nas lavouras. “O trigo tem Proagro, mas e o milho que era investimento proprio?” lamenta o agricultor.

Segundo o chefe do escritório regional da Emater, Jair Domenighi, a entidade havia recebido cerca de 300 comunicações de pedidos de Proagro até ontem, cerca de 50% são de produtores de Novo Machado e Tucunduva, a grande maioria em conseqüência dos prejuízos causados pela chuva. “A chuva na planta pronta para colher baixa o Ph, que baixa o seu valor no mercado. Hoje, os agricultores não conseguem saber quanto vão receber pela saca de trigo”, explica. Segundo ele, o preço de um trigo de baixa qualidade não passa dos R$ 8 a saca.

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