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Caingangue mistura tradição e experimentalismo para curar
30/08/2008 - As plantas medicinais, para um indígena, são instrumentos para a cura do corpo e da alma, e são conhecidas não apenas por experimentalismo, mas por um profundo conhecimento tradicional de suas qualidades curativas. Para o xamã, ou pajé, medicina e sacerdócio estão integrados para a manutenção da ordem e da harmonia, ou seja, da saúde, já ensinava o xamã dos Dakota Sioux Tatanka Ptecila, ou Touro Pequeno, muito antes da chegada de Colombo às terras americanas.
De fato, a utilização de vegetais em preparações medicinais acompanha a humanidade desde registros muito remotos. Hoje, a fitoterapia está regulamentada e vem conquistando espaço entre as especialidades. Mesmo assim, ainda é possível encontrar esse saber oriundo da tradição oral dos povos indígenas. Mas é preciso estar atento para não cair em qualquer história.
Nesta semana, Três de Maio conheceu Ido Galvão, que pratica um tipo diferente de vivenciar a tradição, que mistura outras “técnicas” ao conhecimento que diz ter adquirido com a oralidade. O caingangue Ido Galvão, morador da Reserva Indígena do Guarita, em Tenente Portela e Redentora, aportou no município e instalou uma barraca na esquina da prefeitura. Ele e sua família viajam pelos municípios gaúchos e por outros estados vendendo ervas medicinais, divulgando e ensinando um pouco da tradição indígena a quem se interessar e dedicar algum tempo para uma conversa.
Afirmando ter apoio da Fundação Nacional do Índio (Funai), Galvão, a mulher e os filhos permaneceram em Três de Maio até ontem, onde ele atendeu os interessados em testar o poder das ervas medicinais.
Prego enferrujado e Viagra natural
A lista de doenças que podem ser tratadas com as plantas oferecidas por ele, garante, é extensa, e vai desde diabetes, reumatismo e bronquite até a impotência sexual ou a psoríase (considerada de difícil cura através da medicina tradicional) ou mesmo uma trivial receita para emagrecer.
Entre os produtos mais procurados oferecidos por Galvão está uma espécie de Viagra natural. É nesse ponto da história que a tradição dá lugar a práticas nada recomendáveis. A tal receita mistura vinho, batata e até um prego enferrujado. Dá para acreditar? O caingangue garante que, se o paciente juntar os ingredientes, deixar descansar durante dois dias dentro de um balde com água e então beber um copo à noite, a coisa funciona.
Diante da incredulidade da eficácia da receita, Galvão garante que a mistura faz sucesso em todas as cidades que ele passa. Em Londrina, no Paraná, a promessa de resolver os problemas de impotência teria, segundo ele, atraído pessoas de toda a região. “Na oportunidade, o Viagra natural recebeu até a aprovação de bioquímicos da região de Londrina”, anunciou sem medo. Para garantir crédito a suas palavras, Galvão afirma que o uso das plantas é uma tradição da família dele. “Farmácia de índio é o mato. Índio não toma vacina, graças a Deus”, diz.
Viagras naturais à parte, a fitoterapia é uma coisa séria. No Brasil, desde março de 2004, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) estabeleceu uma regulamentação para garantir a qualidade dos medicamentos fitoterápicos para o consumidor. Para isso, a agência exige a reprodutibilidade dos fitoterápicos fabricados com os lotes desses medicamentos produzidos com a mesma quantidade de um conjunto de moléculas denominado marcador. Outro critério obrigatório é a comprovação da eficácia e segurança dos medicamentos.
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