Cooperjornal

Acidente na BR-386 entre ônibus e carreta mata 13 e choca região

26/07/2008 - Um acidente envolvendo uma carreta da de transportes Giovanella e um ônibus da empresa Ouro e Prata, que saiu às 22h da segunda-feira, 21, de Porto Xavier com destino à capital gaúcha com 35 passageiros, matou 13 pessoas e feriu outras 22 na madrugada da terça-feira, 22. De acordo com informações da Polícia Rodoviária Federal, apenas um passageiro do ônibus escapou sem ferimentos. A colisão aconteceu sobre a ponte do Arroio Concórdia, no km 371 da BR-386, na cidade de Fazenda Vilanova, próximo a Lajeado, no Vale do Taquari.

Com o choque, a frente do caminhão ficou totalmente danificada, e o ônibus teve a parte da lateral esquerda arrancada. De acordo com os policiais, o ônibus acabou tombando sobre a mureta da ponte, e foi preciso a ajuda de um guincho para fazer a remoção do veículo da pista. Entre os feridos, 15 foram encaminhados para um pronto-socorro de Estrela e sete para um hospital de Lajeado. Os corpos foram encaminhados ao Instituto Médico Legal (IML) de Lajeado. A carreta, que transportava um contêiner vazio, saiu do porto de Rio Grande por volta das 20h da segunda-feira, 21, e ia para a cidade de Teutônia, onde seria carregada para depois voltar ao porto, segundo informações do gerente comercial da Transportadora Giovanella, Vlademir Martines.

Segundo o chefe de comunicação da Polícia Rodoviária Federal (PRF) no estado, Alessandro Castro, a pista estava molhada no momento da batida. O ônibus ficou com a lateral esquerda destruída. “Suspeitamos que o motorista tenha perdido o controle do caminhão por causa do cansaço da viagem”. O diretor-presidente da Viação Ouro e Prata, Hugo Eugênio Fleck, discordou da análise do policial, segundo ele o motorista do ônibus trabalhava na empresa há dois anos e tinha experiência de pelo menos dez anos na função. “Era um ótimo funcionário”, disse. A empresa ativou um programa de assistência às vítimas e familiares e disponibilizou o número 0800-0516216 para o atendimento dos parentes das vítimas.

Veículos foram periciados pelo Instituto de Criminalística
As perícias realizadas para identificar as causas do acidente esbarram numa dificuldade: os corpos dos dois motoristas foram bastante afetados pela colisão.
Os peritos tentam verificar se algum deles sofreu mal súbito, como um Acidente Vascular Cerebral (AVC) ou um infarto, mas as vítimas ficaram tão mutiladas que se tornou difícil verificar lesões ou doenças anteriores à colisão. Médicos do posto do Departamento Médico Legal (DML) de Lajeado examinaram os 13 corpos.

Entre os que registravam ferimentos mais graves, estavam os de Gerson Rodrigues Machado, condutor do ônibus da Ouro e Prata, e de Carlos Moacir da Silva, o motorista da carreta que colidiu contra o veículo. Os peritos foram informados, por exemplo, de que Silva ficou dois anos sem trabalhar, em decorrência de um aneurisma cerebral, e tinha reassumido o serviço havia um mês. Os resultados dos exames de necropsia devem ficar prontos em alguns dias. Os médicos também coletaram sangue, para verificar possível uso de drogas ou álcool. O resultado deve levar de 30 a 40 dias para ser concluído.

Duplicação da BR-386 deve ocorrer no próximo ano
O diretor de Infra-estrutura Terrestre do Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes (DNIT), Hideraldo Caron, afirmou que a esperada duplicação da BR-386, no trecho entre Tabaí e Estrela, onde ocorreu a colisão, pode ser iniciada no segundo semestre de 2009.

“A licitação está prevista para ocorrer no primeiro semestre de 2009 e a partir disso nós temos condição de lançar licitação para execução das obras de duplicação. A rodovia tem hoje sua capacidade praticamente esgotada para o transporte da produção local” afirmou Caron.

Segundo o diretor, um dos principais motivos da duplicação é o grande volume de produção do norte gaúcho e do Vale do Taquari que é levado ao porto de Rio Grande.

O adeus às vítimas
ESTER JESKE - O corpo da babá Ester Jeske, 21 anos, chegou ao interior de Cândido Godói, na localidade de Linha Pederneiras, por volta da 1h de quarta-feira, 23. A babá foi velada na Igreja Evangélica de Cristo, e o enterro ocorreu por volta das 15h, antecedido por um culto, no cemitério da localidade. Mais de cem pessoas, entre familiares e amigos, acompanharam os atos fúnebres. Ester estava de folga e tinha ido a Cândido Godói ver a família. Ela regressava à Capital, onde trabalhava.

FÁBIO LOEBENS - O corpo de Fábio Loebens chegou à localidade de Santo Inácio da Linha Alecrim, na zona rural de Alecrim, por volta da 1h30min quarta-feira, 23. Antes da saída do corpo da igreja até o cemitério, houve uma missa. O enterro ocorreu no cemitério Linha Alecrim, às 10h30min, acompanhado pela mulher de Loebens, Eclesiane, os sete irmãos da vítima, os pais, parentes e integrantes da comunidade do interior de Alecrim. Fábio havia passado alguns dias de férias com os pais.

Dor, emoção e homenagem no enterro de Dirce.

DIRCE GRÖSZ - Enterrada na manhã de terça-feira, 22, a professora de 41 anos foi velada na localidade de Araçá, em Nova Candelária. Ela era gerente de projetos na área de educação e gênero da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres da Presidência da República. Amiga de Dirce, a ministra Nilcéa Freire, da Secretaria da Mulher, acompanhou o enterro. Compareceram também representantes de outros ministérios, como o da Justiça.

JOÃO PAULO SCHMIDT - O corpo do mecânico João Paulo Schmidt, 33 anos, foi sepultado no Cemitério Municipal de Santo Cristo. Ele foi velado na capela ao lado da igreja matriz.

SANDRA TERESINHA HENDGES HAMMES - O corpo da mulher de 28 anos foi velado no salão comunitário da localidade de São Miguel, no interior de Nova Candelária. O enterro ocorreu no cemitério católico local. Despediram-se dela professores e colegas da Escola de Educação Especial Raio de Luz, de Boa Vista do Buricá, mantida pela Apae, onde Sandra estudava. O sepultamento ocorreu somente depois da chegada da irmã de Sandra, Salete, e de sua filha, Ana, um ano e 10 meses, que estavam no mesmo ônibus e sobreviveram ao acidente.

Vítimas da região
26 dos 35 passageiros que estavam no ônibus da Ouro e Prata que colidiu com uma carreta na BR-386 e matou 13 pessoas embarcaram em municípios da região. Das vitimas fatais seis eram naturais da região.
Nova Candelária
Dirce Margarette Grösz de 41 anos
Sandra Teresinha Hendges Hammes, de 28 anos.
Alecrim
Fabiane Maders de 14 anos
Fábio Loebens de 21 anos.
Santo Cristo
João Paulo Schmidt, 33 anos
Candido Godoi
Ester Jeske, 21 anos

Lista dos feridos da região liberados
As listas foram divulgadas pelos hospitais.

Liberados do Hospital Bruno Born de Lajeado:
Manuela Mota Schneider, de Boa Vista do Buricá
Ana Tais Hames, de Boa Vista do Buricá
Rafael Hartmann dos Santos, de Boa Vista do Buricá
Liberados do Hospital Estrela:
Gabrieli Vitória Wigmann, sete meses, de Cândido Godói
Paulo Rodrigo Fank, 28 anos, de Cândido Godói
Jaci Maders, 44 anos, de Alecrim
Lucila Maria Justen, 81 anos, de Campina das Missões
Noeli Wigmann, 38 anos, de Cândido Godói

Região perde uma de suas fortes margaridas

Dirce Grösz.

Uma mulher que carregava consigo o desejo de um mundo melhor. Assim os amigos e amigas sintetizaram o exemplo de Dirce Margarete Grösz, de 41 anos, que morreu tragicamente no acidente que matou 13 pessoas e deixou 22 feridas. Natural da comunidade de Araçá, hoje município de Nova Candelária, Dirce participou dos momentos mais importantes da história do país, como as diretas já e as lutas pelos direitos das mulheres trabalhadoras rurais. Petista convicta, Dirce ajudou a organizar o Partido dos Trabalhadores em vários municípios da região. No início dos anos 1990, iniciou sua carreira como trabalhadora da educação em sala de aula como professora e diretora de ensino fundamental em escolas públicas estaduais da região. Entre 1993 a 1996, foi secretária municipal de Educação e Cultura de Boa Vista do Buricá e, no período de 2001 e 2002, secretária-adjunta municipal de Educação em Porto Alegre.

Sempre ligada às origens, Dirce ingressou na militância política nos anos 1980 para defender os interesses dos trabalhadores rurais, percebendo na educação uma forma de transformar o mundo e construir uma realidade mais inclusiva para homens e mulheres do campo e da cidade. Naquele período, foi uma das fundadoras do movimento de trabalhadoras rurais na região, onde também foi dirigente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais e do Partido dos Trabalhadores (PT). Com seu destaque como militante, Dirce foi convidada a contribuir com a construção do plano de governo de Olívio Dutra em 1998. Foi assessora da Deputada Federal Ester Grossi (PT), e trabalhou no governo Olívio Dutra. Depois de trabalhar na secretaria de educação de Porto Alegre no Governo de Tarso Genro, em 2003, Dirce foi trabalhar na Secretaria Especial de Políticas para Mulheres (SPM) do Governo Federal onde permaneceu até a morte trágica na BR 386. Na SPM, muitas obras na região tiveram o empenho de Dirce. A construção do Espaço Margarida Alves, o curso de capacitação das mulheres da Cotrimaio.

Comprometida com a representação das mulheres na política e inserção nos espaços de poder e decisão, Dirce foi candidata à vereadora em Boa Vista do Buricá. De acordo com companheiras de ativismo e amigas de longa data, Dirce era “doce até mesmo na disputa política, confiava nas pessoas acima de tudo, por vezes, pendendo à ingenuidade. Tinha sonhos, acreditava na esquerda. Era humilde e feliz”, assim resumiu emocionada a amiga Marlise Fernandes, que desde a adolescência participava dos movimentos sociais com Dirce. Em 1995, Dirce participou da fundação da Coopercultura, onde ocupou o cargo de Secretária.

Dirce fez os estudos iniciais em escola rural, postulando ao magistério entre as idas e vindas para a cidade após o trabalho na lavoura. Formou-se pedagoga nas Faculdades Integradas de Santo Ângelo (atual Universidade da Região das Missões), em 1990, numa trajetória de superação que significou o aprendizado concentrado no período de férias.

Em março deste ano, Dirce obteve o título de Mestra em Educação pela Universidade de Brasília. Na dissertação “Representações de Gênero no Cotidiano de Professoras e Professores”, a pesquisadora deu voz aos trabalhadores de educação, aos anseios de um mundo em transformação em que as diferenças passam a ser objeto de valorização. “Nenhum empreendimento é possível sem a colaboração preciosa daqueles e daquelas que nos estimulam e impulsionam para não desistir”, escreveu ela na seção de agradecimentos de sua dissertação.

Segundo as pesquisadoras que a acompanharam no mestrado, Dirce transitava entre a ação política, o ideário libertário de uma sociedade sem discriminação e a gestão pública a serviço dos interesses sociais. Tanto na academia quanto no exercício diário de suas funções, ela primava pelo ativismo social e as políticas públicas a favor do fortalecimento da agricultura familiar, valorização das trabalhadoras rurais, formação de educadores e disseminação dos valores feministas e da cultura da igualdade – como se dedicava especialmente na SPM/PR à coordenação do programa Gênero e Diversidade na Escola.

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