Cooperjornal

A noite dos ventos traz a morte à região

Destruição da igreja em Boa Vista do Buricá amplia cenário desolador provocado pelas intempéries.

17/11/2007 - Casas destruídas, postes de concreto quebrados, árvores tombadas e a primeira morte registrada na região causada pelas intempéries neste ano. Este foi o saldo do segundo vendaval que causou destruição em municípios da região em menos de 15 dias. Com os temporais de granizo que também deixam rastros de danos e prejuízos, há cerca de um mês a região sofre com a inclemência do tempo.

Mais de 72 horas depois do segundo vendaval ter assolado a região, na noite da terça-feira, 13, o rastro da destruição ainda pode ser visto nas ruas e sentido na rotina dos moradores de cidades como Boa Vista do Buricá e Porto Mauá, duas das mais atingidas. Desta vez, a fúria dos ventos que atingiram municípios da região trouxe consternação e prejuízos a municípios como Porto Mauá, Boa Vista do Buricá, São Martinho e Nova Candelária e Três de Maio, alguns já duramente afetados pelo vendaval da madrugada do dia 1°. Esta semana, o saldo foi mais trágico, afinal, a primeira morte provocada pelos temporais foi registrada em Porto Mauá.

Postes de energia elétrica inclinados e casas e prédios sem cobertura ainda podem ser vistos. Com a trégua da chuva e do vento, os telhados são recuperados. A recuperação exige sacrifícios e a ação imediata dos governos.

Em Boa Vista do Buricá, cerca de 80% das casas foi atingida. Em Nova Candelária, esse número deve chegar aos 90%. Em Porto Mauá, das 287 moradias atingidas, 25 foram totalmente destruídas. O prefeito do município, Carlos Dinon, também presidente da Associação dos Municípios da Grande Santa Rosa (AMGSR), que havia voltado de Brasília no final da semana anterior, quando acompanhou a comitiva de prefeitos dos municípios atingidos pelo vendaval e pelo granizo, que foi reivindicar auxílio para a reconstrução, exigiu presteza dos governos. Ele reclama da morosidade do governo estadual em reconhecer os decretos de situação de emergência, o que impede que o auxílio da Defesa Civil chegue aos necessitados. Na semana anterior, o governo federal prometeu auxiliar os municípios. Devem ser liberados R$ 5 milhões ao exército para auxiliar a recuperação nos municípios atingidos pelos temporais. Ao menos as cestas básicas prometidas começam a chegar.

De acordo com o coronel Dalmo Nascimento, da Defesa Civil estadual, os decretos devem ser homologados na próxima semana. A pressa é necessária. Hoje, Três de Maio deve receber 1,5 mil telhas da Defesa Civil.

Ventos provocam tragédia

Diferente do que aconteceu no vendaval da madrugada do dia 1, em que apenas danos materiais foram registrados, o vendaval que atingiu a região esta semana deixou um saldo mais trágico: em Porto Mauá, um dos municípios mais atingidos com o temporal, foi registrada a primeira morte na região em decorrência da inclemência do tempo.

O vendaval tirou a vida do agricultor Alirio Dallabona, 55 anos, dentro da própria casa, na localidade de São José do Mauá, interior de Porto Mauá. Para proteger a família, Dallabona teria se posicionado diante da porta da residência, que ameaçava se abrir com as primeiras rajadas, por volta das 23h. Ele empurrou uma mesa contra a porta e ficou segurando.

Porta e mesa voaram, ao mesmo tempo em que as paredes e o teto da peça desmoronaram. Dallabona foi prensado por uma viga. Ele chegou a ser socorrido, mas não resistiu aos ferimentos.

Recuperação difícil mobiliza população e preocupa autoridades

Boa Vista do Buricá foi um dos municípios mais atingidos pelo vendaval do dia 13.

A reconstrução será difícil nos municípios da região atingidos pelos violentos vendavais de novembro. Em Boa Vista do Buricá, faltam mão-de-obra e material de construção para os consertos. Boa parte da cidade permanecia sem luz até ontem. O prefeito Jorge Klöckner afirma que está preocupado com a situação. Ele confirma que, com as escolas e creches municipais sem aulas, há o temor de que os funcionários de fábricas e empresas tenham que ficar em casa com os filhos, o que agravaria ainda mais a situação econômica do município, que ainda calcula os prejuízos causados pelos ventos.

O município amanheceu na quarta-feira, 14, para um cenário desolador após o violento temporal da madrugada, que trouxe extensos danos e momentos de terror para a população. Embora ainda não haja números oficiais, cerca de 1,5 mil casas foram danificadas.

Uma igreja foi completamente destruída e outras duas sofreram danos na cobertura. Os danos mais graves ocorreram na Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), onde sobrou apenas parte da fachada e o piso. As paredes laterais e o teto ruíram. O prefeito decretou situação de emergência. Com isso, já são 101 municípios gaúchos em situação de emergência por conta das intempéries. As aulas foram suspensas por tempo indeterminado. A cidade ficou sem todos os serviços essenciais, como luz, água e telefone. “Pensei que era o fim do mundo”, afirmou o funcionário público Adelar Engel, de 47 anos.

Danos em silo mostram força dos ventos em Nova Candelária

Diretor da GSI garante que silos são os mais fortes.

Em poucos minutos, o trabalho de vidas inteiras se perdem com a força dos ventos, que deixaram comunidades inteiras estarrecidas e um rastro de destruição nunca antes visto na região. Em Nova Candelária, os danos provocados pelos ventos em silos de uma indústria de rações para suinocultura causaram espanto.

Ricardo Marozzin, gestor de Marketing e Engenharia da GSI, multinacional que possui silos em todos os continentes, afirmou que os danos foram extensos e surpreendentes. Segundo ele, os silos da companhia já enfrentaram nevascas e ventos fortes, e nunca foram ao chão. “A capacidade dos nosso silos é de agüentar ventos na faixa de 130 a 140 km por hora”, revela. “São os silos mais fortes do mercado”, garante.

Mesmo assim, os silos pareciam latas de alumínio socadas pelo vento. Marozzin afirmou que, após o vendaval, o objetivo da empresa é restabelecer a capacidade operacional dos silos em Nova Candelária. “Estamos focados em resolver o mais rápido possível os problemas – eliminamos a palavra estrutural, visto que não é esse o problema”, afirmou. A intenção é assegurar a capacidade de recebimento dos grão na próxima safra. “Temos uma responsabilidade com nossos clientes, e estamos empenhados para deixar os silos em operação”, afirmou o executivo.

Os valores do prejuízo causado pelo vendaval ainda não foram computados. Marozzin afirmou que não há ainda um levantamento detalhado dos prejuízos (“eliminamos a palavra milhões, visto que ainda é cedo para saber se precisará um montante assim”, revela). “Nem nós nem o seu Orlando (Konzen, proprietário da empresa) esperávamos o que aconteceu. Agora é buscar as alternativas para resolvermos esse problema”, finalizou.

A Konzen Suinocultura, proprietária da indústria de ração, não quis se pronunciar .

Depoimentos

“O cenário é de destruição, a sala de informática, com mais de 20 computadores molhados, e a secretaria foram parcialmente destruídas, e isso inviabiliza o início das aulas para a escola. O ginásio foi completamente destruído, e agora é esperar a avaliação do seguro, mas isso demora um pouco. Até lá, teremos que ver como serão as aulas”.
Sônia Weber, vice-diretora da Escola Barão do Rio Branco, em Boa Vista do Buricá.

“A noite foi terrível, eu, a mulher e minha filha de três anos, nossa salvação foi ir para baixo da mesa. Caiu o telhado e toda a lateral da casa. Estávamos embaixo da mesa e, quando vi, o telhado foi embora. Perdi minha casa, que lutei tanto para construir, mas o importante é que não foi a vida”.
Jairo Lincke, funcionário da Cotrimaio em Boa Vista do Buricá.

“O contêiner de 1.500 quilos levou dois tombos com a gente dentro. Eu acredito que os ventos foram superiores a 150km por hora. Em 16 anos de trabalho, nunca havia visto uma coisa assim”.
Elias Tizoco, trabalhador da MagiSul, arrastado dentro de um contêiner com mais três pessoas.

“Nunca vi coisa igual, foi rápido, menos de dois minutos e foi tudo embora. Agora é reconstruir tudo de novo”.
Jorge Herkert, ecônomo de Ivagaci.

Fortes temporais castigam região desde o início da primavera

Ginásio da Escola Barão, de Boa Vista do Buricá, apresenta resultado da fúria dos ventos.

O temporal da terça-feira foi o quarto a atingir a região com violência desde o dia 20 do mês passado, provocando destruições sucessivas. Não se trata de coincidência. Os gaúchos da região estão no que o meteorologista Gustavo Escobar, coordenador do Grupo de Previsão do Tempo do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), chama de “corredor de temporais”, denominado pelo também meteorologista Eugênio Hackbart, da MetSul Meteorologia, de “corredor dos tornados”. Essa área, que também abrange o oeste de Santa Catarina, onde houve temporais que registraram rajadas de até 140 km/h, segundo o Inmet, o nordeste da Argentina e o sul do Paraguai, recebe nesta época do ano massas de ar quente e úmido originárias da Amazônia, que provocam chuva e ventos fortes. Distante do oceano, a área registra temperatura alta, combustível para as precipitações. Isso torna as primaveras períodos de chuva forte na região. Neste ano, o fenômeno foi intensificado por causa de um elemento extra: as frentes frias que chegam do sul tornaram-se mais freqüentes. Segundo a Central de Meteorologia, uma delas entrou na terça-feira, horas antes do temporal.

Municípios contabilizam perdas em decorrência do temporal

Prefeito Carlos Rohr, de Nova Candelária, ainda contabiliza prejuízos.

As prefeituras dos municípios atingidos pelo temporal da terça-feira,13, estão contabilizando dados das perdas para incrementar informações à Defesa Civil do estado. Porto Mauá, município que já estava em situação de emergência devido ao temporal do início do mês, com os novos danos provocados esta semana, novos dados vão ser acrescidos ao que já estava protocolado, o que pode aumentar o nível de emergência e forçar o repasse de verbas para auxílio. Em Sede Nova, cerca de 120 pessoas estão desabrigadas. Além de casas, o destelhamento também foi registrado em escolas, prédios públicos e cooperativas. No interior, a plantação de milho foi praticamente destruída em sua totalidade.

O sargento Adauto Pimentel Gomes, da Defesa Civil, confirmou que São José do Inhacorá, Boa Vista do Buricá, Nova Candelária e Humaitá decretaram situação de emergência na tarde da quarta-feira,14. Nestes municípios, em torno de 80% das residências foram atingidas. O prefeito Jean Carlo Humhoff, de São Martinho, informou que os prejuízos chegam a R$ 7 milhões.

Boa Vista do Buricá e Nova Candelária vivem situações semelhantes. O nível de destruição foi grande, afetando quase dez mil pessoas nos dois municípios. Embora os prejuízos ainda não estejam totalmente quantificados, a estimativa é que os valores cheguem próximo dos R$ 10 milhões. Além de residências, postes de luz, árvores e prédios públicos, o vendaval afetou duramente a economia dos municípios. Em Nova Candelária, maior produtor de suínos do estado, o setor sofreu prejuízos incalculáveis.

A situação dos atingidos

Porto Mauá – No centro de Porto Mauá, aproximadamente 50 casas ficaram destelhadas. Em São José do Mauá, praticamente todas as casas tiveram algum dano no telhado. A localidade tem cerca de cem residências. O número de desabrigados chega a 40, levados ao Ginásio Municipal de Esportes.

Horizontina – Os ventos fortes também derrubaram árvores sobre a rede elétrica, em Horizontina, o que deixou bairros sem luz. Os bombeiros de Horizontina entregaram lonas aos moradores de casas destelhadas pelo vento. Pelo menos 40 residências foram danificadas. O vento derrubou ainda árvores e postes da rede elétrica. O parque de exposições, onde está sendo realidada a Feitech 2007, teve alguns estandes de lona derrubados, mas a programação da feira não foi afetada.

Boa Vista do Buricá – O município foi um dos mais atingidos pelo temporal. De acordo com estimativa do Corpo de Bombeiros de Três de Maio, que atende a cidade, cerca de 90% das casas foram destelhadas pelo vento. Paredes da Igreja Evangélica foram derrubadas durante o vendaval, que também destelhou parcialmente a Associação Hospitalar. Árvores e postes foram derrubados pelo vento, e até a viatura da Brigada Militar foi atingida. 1,8 mil residências foram danificadas, e 21 totalmente destruídas.

Crissiumal – A Defesa Civil de Crissiumal visitava pela manhã o interior do município, onde o temporal provocou estragos, para saber a dimensão do prejuízo. As localidades mais atingidas pelos destelhamentos foram Linha Brasil, São Vicente e Bela Vista.
Tuparendi – Devido ao vendaval, aproximadamente 30 casas foram destelhadas nas localidades de Cinqüentenário e Barracão.

São Martinho – Bastante atingido pela força dos ventos, com mais de mil casas atingidas. O Hospital São Gregório teve as telhas danificadas. Um homem ficou ferido ao cair do telhado enquanto colocava lonas sobre a residência. Árvores e postes foram derrubados durante o temporal. 32 casas ficaram completamente destruídas.

Nova Candelária – Cerca de 600 casas foram atingidas pelo vendaval, e 12 ficaram destruídas. No interior, suinocultores tiveram prejuízos com a queda de galpões, que feriram e mataram animais.

Tiradentes do Sul – O temporal provocou estragos em cerca de 40 casas. Mais de 300 árvores foram arrancadas pelo vento, interrompendo estradas vicinais do município.

Três de Maio – Aproximadamente 50 casas ficaram destelhadas no interior, nas localidades de Manchinha, Consolata e Progresso. Galpões e silos também foram danificados. A unidade de recebimento de grãos da empresa Camera, na localidade de Manchinha, foi bastante destruída pelo vendaval.


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