Cooperjornal

EM CENA MÁRCIO LOPES DE FREITAS Cooperativista
“O cooperativismo precisa suporte político ”

04/07/2009 - O administrador de empresas Márcio Lopes de Freitas representa os anseios de 7.682 cooperativas e, entre elas, 1.611 da área agropecuária. Ele é presidente da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), setor responsável por 6% do PIB do país. Sua atuação na defesa dos valores e princípios do cooperativismo começou em 1994, e ele mesmo chegou a presidir duas cooperativas. Otimista diante das incertezas do atual cenário da agropecuária, ele ressalta nesta entrevista – publicada exatamente no dia dedicado mundialmente ao cooperativismo – os bons resultados obtidos no processo de modernização da gestão das cooperativas brasileiras que, para ele, tem auxiliado no período de crise.

Cooperjornal – É possível estabelecer um perfil do cooperativismo brasileiro?
Márcio Lopes de Freitas – A imagem do setor está muito vinculada ao setor agrorrural e, do ponto de vista econômico, não há erro nisso. Mas, socialmente falando, o cooperativismo hoje é muito mais urbano que rural. São 7.682 cooperativas no sistema em 13 atividades econômicas distintas e 7 milhões de cooperados. Se considerarmos que cada cooperado tem três familiares, o universo total atinge 28 milhões de pessoas. O cooperativismo corresponde a 6% do PIB brasileiro. Sua atuação abrange a produção agropecuária, o crédito rural e urbano, a infraestrutura, como eletrificação e telefonia, por exemplo, e saúde, trabalho, consumo e educação, entre outros. É uma força poderosa.

Cooper – Apesar dessa força, o cooperativismo foi afetado pela crise. Como o senhor avalia o cenário?
Freitas – A primeira coisa que se deve colocar é que não é uma crise de crédito, essencialmente, apesar de o dinheiro ter diminuído. É uma crise de confiança, que chegou também ao cooperativismo. Os mecanismos de financiamento são criados num clima de confiança, e as desconfianças geraram os problemas. É preciso lembrar que o país tem um sistema financeiro que transfere confiança, é muito bem controlado. Além disso, vivíamos um momento ímpar na economia, principalmente no agrorrural. Falava-se que ia faltar comida, pois 2,5 bilhões de pessoas entrariam na zona de consumo em todo o mundo até 2020. No ano passado, para o agricultor, para a cooperativa agrícola era o melhor dos cenários. O Brasil tinha competitividade, tinha preço para disputar, tinha condição de produzir. Ora, não mudaram os mercados, não mudaram os fundamentos. Os 2,5 bilhões de pessoas vão entrar na zona de consumo. Pode ser um pouco mais lenta essa inclusão, mas a China continua botando um Brasil de bocas por ano nas cidades. São 180 milhões de chineses que anualmente deixam a atividade agrícola. Isso não mudou. O que mudou foi que arrefeceu o crédito por lá.

Cooper – A perda dos mercados foi a principal consequência da crise?
Freitas – Os mercados é que começaram a amolecer. Exemplo: a Itambé, uma cooperativa de leite, que estava exportando leite a 4,5 mil dólares a tonelada, tinha compradores na África, na Venezuela. Esse mercado esborrachou em outubro com a crise americana. O mesmo aconteceu com a Aurora, uma cooperativa de carne de Santa Catarina. Vendia frango para o Japão, a 4,5 mil, 4,8 mil dólares a tonelada, 30 mil toneladas. Desde outubro, parou. O financiamento estancou. Na época eu cheguei a ter uma audiência com o presidente Lula. Ele me disse: “você está com medo antes da hora”. Eu respondi: não, presidente, o bicho vai pegar.

Cooper – O governo já tem anunciado incentivos. Como a OCB avalia o momento?
Freitas – Nossa agenda com o governo foi encaminhada em novembro. Uma agenda ampla e que passa por algumas formas para se obter capital de giro, algumas já confirmadas. São linhas de crédito de capital de giro para as cooperativas nas linhas já existentes. Isso foi negociado, eu estive com o ministro Paulo Bernardo, com o ministro Stephanes, na Fazenda. Cheguei a fazer uma via-sacra pelos ministérios com uns 30 presidentes das maiores cooperativas brasileiras. Negociamos parte daqueles R$ 100 bilhões do BNDES para um programa chamado Prodecoop. É um programa que já existe, é de investimento e de capital de giro, e devemos pegar um reforço de R$ 1,3 bilhão. Negociamos outra linha que é um programa de capitalização das cooperativas. Mas estamos pelejando também para recuperar os créditos que temos com as exportações. São impostos retidos. Veja bem: nós precisamos de R$ 3,3 bilhões e temos R$ 4 bilhões de crédito.

Cooper – Essas conquistas e negociações podem significar uma nova relação do cooperativismo com o poder central?
Freitas – O cooperativismo precisa ter suporte político, capacidade de impactar. Também precisa ser melhor entendido. A população e o governo devem entender que cooperativa é sociedade de pessoas, não de capital. Quero ressaltar que as cooperativas estão se unindo para enfrentar a tempestade, se aglutinando. E isso acontece na crise, não na bonança, já que a cooperativa é uma sociedade de gente. Eu acho que esse processo vai continuar e, dentro de dez anos, vamos ter de 800 a mil cooperativas agropecuárias. Hoje, elas passam de 1,6 mil.



Cooperjornal - 2005 - Termos de Uso | Contato
www.cooperjornal.com.br
Av. Santa Rosa, 845 Três de Maio/RS
Atualized: Gladis Maria Endres. Design: índio