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CENA LAVARO RIBEIRO DE OLIVEIRA NETO Delegado Regional de polícia
“Falta de limites abre portas para as drogas ”
14/02/2009 - Com 18 anos dedicados à Polícia Civil e atuação em Roque Gonzáles, Porto Xavier, Giruá e Santa Rosa, o delegado Álvaro Ribeiro de Oliveira Neto coordena a 10ª Região Policial, que abrange 19 municípios da região. Nesta entrevista, ele fala sobre o combate ao tráfico de drogas na região, que tem se tornado rota para o tráfico internacional nos últimos anos.
Cooperjornal – O alto consumo de drogas é uma questão de saúde pública que vem atingindo proporções maiores. Qual a sua avaliação sobre o cenário do tráfico na região?
Álvaro Ribeiro de Oliveira Neto – Não somos diferentes de outras regiões de mesmo porte. Temos problemas proporcionais ao número de habitantes. Em Santa Rosa, se tivermos em um ano oito homicídios, no máximo um estará relacionado ao tráfico. Existem questões que nos preocupam, como os corredores da droga, que passam por vários municípios da região servindo ao tráfico internacional. O problema perpassa a área de segurança e atinge também a saúde e orientação da juventude. A problemática das drogas é abrangente, atingindo o social, estando muitas vezes dentro das casas. Num passado não muito distante, registrávamos o tráfico e consumo de substâncias mais leves, e agora tipos mais nocivos estão chegando a todos os municípios. O crack é uma droga perigosa, que vicia rapidamente, e hoje é uma realidade. Embora não haja um grande surto de consumo, ele cresce progressivamente, aumentando o número de dependentes. Um sinal é a criação de leitos em um hospital de Santa Rosa para tratar destss pessoas. É bom lembrar que nem sempre o viciado é um bandido, geralmente é um doente. À medida que os municípios crescem, o problema das drogas cresce junto.
Cooper – Nos últimos anos, há um crescimento no número de apreensões de drogas na região. Quais os principais desafios para combater o tráfico?
Oliveira Neto – A região hoje é um corredor por onde passam drogas vindas até de outros países. Nos dois últimos anos, fizemos apreensões recordes ecom a Polícia Federal e a Brigada Militar. É preciso lembrar que a droga existe onde tem quem consome. Nós temos que trabalhar com a questão do traficante e do usuário, que geralmente precisa de ajuda para se livrar da dependência. O traficante é caçado implacavelmente. É preciso separar as duas situações. O traficante mudou seu perfil, hoje abrange todas as classes sociais e se vale de muitas alternativas para mascarar o tráfico. Não podemos deixar de citar também as drogas lícitas, como o álcool. Se observarmos os registros de agressões e homicídios, cerca de 90% estão vinculados ao consumo de bebidas alcoólicas. As crianças crescem vendo o consumo de álcool como uma coisa normal e, na verdade, estão abrindo uma porta para a transgressão.
Cooper – A estrutura familiar é importante para evitar que os jovens se lancem no consumo de drogas?
Oliveira Neto – Claro que sim, mas é preciso lembrar que os tempos são outros. Estamos em uma época tecnológica, com acesso a um volume muito grande de informações. É preciso levar em consideração que família estruturada não significa seus membros todos juntos. Temos famílias que moram sob o mesmo teto e vivem um “inferno astral”, sendo um caminho aberto para as drogas. Agora, quando existe diálogo, mesmo que residindo em casas diferentes, são criados vínculos de confiança, e o jovem não vai buscar apoio em outras pessoas, que muitas vezes podem ser traficantes.
Cooper – “Bocas de fumo” reconhecidas fazem parte do cotidiano da região. Como evitar que estruturas do tráfico se instalem?
Oliveira Neto – Há cerca de dez anos, quando cheguei em Santa Rosa, não se ouvia falar em crack, que não tinha chegado nem em Porto Alegre, e hoje é uma realidade regional e não escapam nem os pequenos municípios. A sociedade espera a repressão, mas nem sempre se dispõe a colaborar com a polícia passando informações. A polícia civil tem um número reduzido de agentes, que não atende somente o tráfico, e sim tudo o que chegar até a DP. A participação da comunidade é fundamental, e as pessoas não devem temer passar informações que são fundamentais para as ações de combate. O anonimato é garantido e, muitas vezes, as denúncias são importantes para o processo investigatório.
Cooper – O que impede uma ação mais rápida?
Oliveira Neto – Toda a pessoa que vê um crime deve avisar a polícia, seja a civil, militar ou federal. No entanto, não basta a informação, temos que agir com cautela e nos cercarmos de provas para poder agir. Muitas vezes, para se conseguir provas, são necessárias investigações longas até se chegar à situação ideal para realizar a prisão. A informação é bem-vinda. Quando ela chega na polícia, mesmo que anônima, cabe a nós averiguarm e construir um plano de ação. Cada vez que se acompanha informações sobre apreensões, a comunidade pode ter certeza que isto não aconteceu ao acaso. É fruto de um trabalho de investigação realizado por delegados e investigadores, muitas vezes baseado em informações que chegaram até a delegacia. Temos que fazer as coisas de forma correta, como determina a lei.
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