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EM
CENA CAIO VIANA Presidente da CCGL
“Não é uma bolha, é o futuro”
07/06/2008 - Caio César Viana está à frente de um dos
maiores projetos industriais ligados à
expansão da produção leiteira no Rio Grande do Sul. Sem o mesmo alarido provocado por outras iniciativas do setor, como as unidades da Nestlé em Palmeira das Missões e da Parlamat em Carazinho, o presidente da Cooperativa Central Gaúcha (CCGL) comanda a implantação de um complexo industrial para a produção de leite em pó voltada à exportação que abrangerá todo o processo. À frente da central que congrega 86.566 produtores de 19 cooperativas, Viana afirma nesta entrevista que indústria que deve iniciar operações em agosto vai “regular o mercado”.
Cooperjornal – Como foi construída a retomada da CCGL?
Caio Viana – Para que tudo isso desse certo, tivemos a parceria das cooperativas. É importante pontuar isso porque as cooperativas fizeram isso em nome dos produtores. Não se pode falar em leite sem explicar um pouco o porquê do projeto. As cooperativas madrugaram na questão da industrialização do leite.
Cooper – Qual era o contexto da produção e da comercialização do leite ?
Caio Viana – Até 2004, éramos grandes importadores no leite. O Brasil, nos meses de março a julho, importava leite e, em setembro, sobrava. Com este cenário, o produtor acabou se acostumando com a sanfona, que tinha um preço num determinado período e outro em outro período, fazendo o ganho do produtor cair. Tínhamos que fazer alguma coisa em relação a isso, e esta foi a nossa decisão diante do cenário.
Cooper – A idéia era regular o mercado?
Caio Viana – Foi este o estudo que fizemos, porque todo o investimento das cooperativas e da CCGL não poderia ser para apenas comprar leite e ganhar dinheiro. Nossa função, e nisso acertamos, é proteger o produtor e regular o mercado. Não podemos pagar um preço muito acima do mercado, assim como as cooperativas não podem pagar pela soja, pelo milho. Então, a gente tentou estudar o mercado para avaliar o que poderíamos fazer para que o mercado não abusasse do produtor, especialmente porque o leite é um produto perecível, diferente dos grãos, que podem ficar armazenados para posterior comercialização.
Cooper – E porque a opção por industrializar leite em pó?
Caio Viana – Para conquistarmos o mercado exterior. Há um curto período entre a produção e a comercialização do leite, por ser um produto perecível. O leite longa vida, apesar do nome, tem um tempo máximo de vida de seis meses. 70% das indústrias do estado produzem leite longa vida, que é um produto de comércio local. Não é possível mandar leite longa vida para o exterior, porque o custo é muito alto. Nas primeiras discussões desenhamos isso, que no Brasil vai faltar planta de secagem de leite, indústria de leite em pó, porque o Brasil tem que passar a ser exportador de leite, e leite longa vida não se exporta. O caminho é o leite em pó, que reduz muito o volume de leite, alem do queijo, que a indústria também vai poder produzir.
Cooper – Essa opção acabou direcionando o investimento de outras indústrias ?
Caio Viana – Depois do projeto da CCGL, todos os outros que se ouviu falar são voltados para leite em pó, mas há diferenças. A planta da Nestlé, em Palmeira das Missões, por exemplo, não é completa. Eles não vão secar leite. O projeto da CCGL é completo, o leite entra in natura e sai industrializado e pronto para exportar. Nós olhamos este cenário e trouxemos uma idéia da alta dos preços dos lácteos no Brasil. A escalada começou em 2004, quando o leite em pó estava sendo vendido a US$ 1.920 a tonelada. O ano passado, em julho, ele bateu o recorde a US$ 5,5 mil, e hoje está estabilizado entre US$ 4,3 mil à US$ 4,7 mil, dependendo da qualidade. Por isso, todos os equipamentos que colocamos são top, nossa torre, que vai secar um milhão de litros por dia, é a maior da América Latina. Não é uma bolha, é o futuro.
Cooper – Quais as causas dessa valorização do leite?
Caio Viana – Boa parte vem das secas que ocorreram na Austrália e na Nova Zelândia, que não têm como produzir grãos. A produção está no máximo da capacidade, são o maior exportador de lácteos do mundo. Outra questão são os altos subsídios da União Européia, que devem acabar. Assim, muitas empresas redirecionaram seus investimentos e começam a ver com bons olhos a nossa produção leiteira, que podem produzir com qualidade e com custo baixo. A chegada dessas empresas no Brasil mostra que a atividade de leite vai acontecer aqui no Brasil com eficiência e qualidade. Empresas do mundo inteiro estão vindo comprar leite no estado, porque é mais barato para eles e, além disso, nivela o preço do leite. Em 2004, o litro de leite era pago cerca de US$ 0,18, e hoje o produtor recebe cerca de US$ 0,38 o litro. A expectativa é que aumente mais ainda.
Cooper – A região tem produção?
Caio Viana – Fizemos um estudo sobre a produção e o consumo nos últimos 25 anos no Brasil. Nós vimos que, a cada cinco anos, a produção tem crescido substancialmente. Nos últimos 15 anos, a produção crescia 3,8% e o consumo, 3,5%. Esse ano, estamos em produção com o crescimento de 4,4% e o consumo em 2,2%. Então, se a Nova Zelândia, um país menor que o Rio Grande do Sul que só tem solo para pastagem, é o maior exportador de leite do mundo, é duvidar da capacidade do nosso produtor não acreditar que ele possa aumentar a sua produção . Se 30 em cada cem produtores que vão produzir leite para a CCGL aumentar em cem litros sua produção diária, nós esgotaremos a capacidade de produção da indústria em 2010.
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