Cooperjornal

EM CENA JORGE TREVISOL Doutor em Educação
“É importante criar uma educação nova”

24/05/2008 - Formado em Filosofia e Teologia pela PUCRS, Mestre em Psicologia pela Universidade Gregoriana de Roma e Doutor em Educação também pela PUCRS, Jorge Trevisol, que leciona na Escola de Formadores e no Instituto Salesiano Pio XII, ambos em São Paulo , integra a equipe de pesquisa e inteligência espiritual e educação na PUCRS. Escritor, cantor, compositor, conferencista e educador, Trevisol ministra cursos, palestras e promove shows pelo Brasil e no exterior. Em Três de Maio, ele participou como palestrante do curso de extensão em educação, promovido pelo 35º Núcleo do Cpers.

Cooperjornal – Qual a importância da espiritualidade na educação?
Jorge Trevisol
– A espiritualidade permeia todas as coisas e todos os ângulos da vida humana. Por isso, tem uma importância no que diz respeito à valorização da vida. A educação precisa ter este papel de valorizar a vida, e a espiritualidade ajuda a construir os valores para despertar a consciência do ser humano. Existe uma grande diferença entre a espiritualidade e a religiosidade. A espiritualidade é mais ouvir o ser humano, pois ela vem de dentro. É preciso ouvir muito o que as pessoas têm medo e o que elas desejam, ouvir os sonhos. A espiritualidade na educação é ajudar o ser humano a descobrir o que está fazendo aqui, qual o seu papel no mundo. Uma educação sem espiritualidade é uma educação pela metade, muito técnica e pouco pedagógica. Em todo o ser humano há um âmbito espiritual, e é necessário trabalhar isso.

Cooper – Mas como se dá essa relação?
Trevisol
– A primeira coisa em educação que precisamos fazer é pensarmos que tudo está interligado. Se eu não cuido da natureza, se eu não cuido de uma vida, lá para frente vamos ter problemas. Também se no outro lado do mundo não cuidam do mundo, não cuidam das pessoas, nós vamos ter problemas do lado de cá. Então, esta rede vai avançando. Hoje, não é difícil falar nesse assunto, porque os jovens estão interligados. A própria palavra internet facilita a compreensão: net é rede, inter é uma rede entrelaçada. Nada que acontece no mundo está livre e independente. E a grande tarefa da educação, sobretudo da escola, é esta: mostrar para as novas gerações que não há possibilidade de uma pessoa cuidar só de si. Se ela não cuida dos outros, não se cria um mundo diferente. Isto é espiritualidade.

Cooper – Esta espiritualidade trata de um cuidado global?
Trevisol
– Uma das coisas mais bonitas que estão sendo descobertas neste tempo é a ética do cuidado. Tudo aquilo que é cuidado dura mais. Se eu cuido da minha roupa, se eu cuido do meu livro, se eu cuido da minha casa, se eu cuido do jardim, se eu cuido da escola, do telefone que está na praça, tudo isso vai criando um mundo mais bonito para todos. Agora, quando a gente não cuida disso tudo, quando nós não temos a ética do cuidado, as coisas vão se deteriorando. Assim é na vida da gente também. Se eu não cuido bem da minha vida, eu não estou cuidando bem da vida do outro. E se eu não cuido bem da vida do outro, também não estou cuidando da minha vida. Acho que é importante criarmos uma reflexão nova, uma educação nova: cuidar-se, isso é espiritualidade.Na época de Jesus, a idade média das pessoas era 29 anos. Vivia-se muito pouco. Hoje, a idade média é 72, 73 anos. As pessoas vivem muito. Os jovens de hoje certamente não vão morrer antes dos 90 anos. Então, se eu não cuidar hoje do mundo, se eu não cuidar hoje de mim, nem das pessoas que estão envolvidas comigo, se eu não cuidar das plantas, dos animais... mais para frente eu vou ser muito prejudicado.

Cooper – Isso exige uma educação com mais diálogo?
Trevisol
– Por causa da internet e da informática, estamos tirando das escolas uma coisa que sempre foi delas: passar conteúdos. Com o tempo, os conteúdos não precisarão mais ser repassados na sala de aula. Mas existem algumas coisas com que a escola e a educação têm de se preocupar. Os relacionamentos das pessoas são um bom exemplo disso. Não existe uma única filosofia, religião, ética ou moral. Mas, colocando tudo em comum, percebemos que um não pode sobrepujar o outro. Entendemos que, se não somos capazes de renunciar a alguma coisa e aceitar o que o outro diz, se não formos capazes de também dizer algumas coisas para os outros, numa atitude de diálogo, não criaremos um mundo habitável. E a grande tarefa da educação é justamente essa: criar um mundo habitável. Se não nos colocarmos todos juntos, se não partilharmos tudo isto, nós não teremos um mundo habitável, nem teremos um mundo bom para ninguém.

Cooper – Como a escola educa para a vida?
Trevisol
– A grande finalidade da educação é gerar uma vida concreta. Quando vejo uma pessoa que está ao meu lado e é de uma etnia diferente, de uma religião diferente, de um sexo diferente, de uma maneira diferente de pensar, eu vou dizer assim: esta vida precisa ser zelada por mim. Não podemos olhar o outro numa dimensão de dominação. Se não dermos oportunidade para todos, isso vai se voltar contra nós. A vida existe para ser uma promoção da outra vida, não para ser uma ameaça.

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