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EM CENA DÉCIO LUIZ GAZZONI Pesquisador da Embrapa e Consultor do BID
“Estamos vivendo uma revolução”

19/04/2008 - O Brasil desponta como o principal país para suprir a demanda mundial por alimento e biocombustível, afirma nesta entrevista o agrônomo Décio Luiz Gazzoni, pesquisador da Embrapa Soja, consultor do Banco Internacional de Desenvolvimento (BID). Com a gradual saída dos Estados Unidos do mercado internacional, a oferta de produtos vai cair e os preços se elevarão. Com o preço em alta, os demais países vão querer comprar produtos do Brasil, já que o país tem capacidade para atender a demanda.

Cooper – Como o país pode se preparar para fazer frente aos novos desafios do setor?
Décio Luiz Gazzoni
– Para que essa perspectiva se torne realidade, o Brasil precisa enfrentar alguns desafios. O primeiro é melhorar a infra-estrutura, pois não conseguirá transportar uma grande produção com as rodovias precárias que tem. Também terá que se articular para não ser apenas fornecedor de matéria-prima, vendendo não soja em grão, por exemplo, mas proteína de soja, frango, porco. A Argentina fez isso silenciosamente; a partir de 2010 não exportará mais soja em grão. O Brasil precisa usar mais sua barganha, o seu poder de detentor do produto.

Cooper – Qual é a demanda hoje de alimentos e biocombustível?
Gazzoni
– Estamos vivendo um momento muito particular, e dois fatos estão gerando demanda agrícola forte. Um deles é biocombustível. Mas eu não acho que seja o mais importante. O que mais está pressionando é a inclusão social e eu não estou falando de Brasil. A fome no mundo passa longe do Brasil. Não que aqui não tenha. Mas não é a fome brava de não ter realmente o que comer e não é uma população muito grande. Eu estou falando de estimados 800 milhões de pessoas – e esse número é da FAO – que estão concentrados no sudeste asiático e na África. Ali a fome é brava e a mortalidade infantil é fortíssima. Para combater a fome, se o mundo mantiver o aumento da produtividade agrícola, começando com 1,5% agora e ao longo de 20 anos ir subindo aos pouquinhos, chegando a 1,75%, isso é fácil. Só com aumento da produtividade agrícola em 20 anos acabaria com a fome no mundo. No mundo, alguém vai ter plantar mais e vem novamente a responsabilidade do Brasil, que tem terra, tem sol, tem mão-de-obra. O Brasil está condenado a ser uma das soluções do mundo.

Cooper – Quanto é preciso produzir para atender essa demanda mundial?
Gazzoni
– Em termos equivalentes, só para substituir gasolina por etanol, nós precisaríamos daqui a 20 anos ter o equivalente a 30 milhões de hectares de cana de açúcar [hoje se planta 5,6 milhões de hectares de cana no Brasil]. Se pegar uma planta menos eficiente que a cana, a área é maior. Mas ainda tem que substituir o diesel pelo biodiesel. Tem que tirar isso de oleaginosas, de soja, dendê, que é a cana de açúcar para produzir óleo. Imagino que precisaríamos entre 15 e 20 milhões de hectares de dendê. Onde? Nas regiões tropicais do planeta: Tailândia, Indonésia, Malásia, Nigéria, Brasil, Colômbia, Equador, Costa Rica. A área tem. anta chorar o leite derramado. Com alimentos vai acontecer o seguinte: os EUA, que são o grande produtor agrícola no mundo, não têm mais como expandir a área. Cada vez mais vamos sentir, principalmente no Brasil e na Argentina, uma pressão muito grande para produzir mais.

Cooper – Quais são os maiores desafios nesse cenário?
Gazzoni
– Nós temos desafios de ordem de logística, de capital e de tecnologia. Capital é o que menos me preocupa, pois está sobrando no mundo. Precisa trazer esse dinheiro para os países que têm capacidade de expansão agrícola, entre eles o Brasil. Isso já se discute, mas é muito preliminar. Aí você amarra com a questão de logística. Quando se olha para o Brasil, qual é a realidade do interior do país? Começa a safra de soja e vemos aqueles caminhões atolados, estradas com buracos, filas dos caminhões para descarregar. Temos que ter hidrovias e ferrovias e isso demanda muito dinheiro e não pode ser dinheiro público. No Brasil, a logística é um desafio sério. E tem o desafio da tecnologia. Podemos expandir a produção por aumento de área ou por aumento de produtividade. O aumento de produtividade é só por tecnologia, colocando muito dinheiro em instituições de pesquisa para garantir o 1,5% de aumento de produtividade a cada ano.

Cooper – O senhor falou que o Brasil está condenado a ser a solução para a demanda de alimentos e biocombustível. Mas como o País é visto lá fora? É realmente o principal país para apresentar uma solução?
Gazzoni
– Sem sombra de dúvida. O Brasil desperta, como o Roberto Jefferson falou, os instintos mais primitivos. Eu que tenho andado aí fora, tenho notado que há um dualismo com relação ao Brasil. Por um lado se olha como uma grande solução para o futuro, que não é de demanda apenas por comida e biocombustível. Tem produtos florestais, madeira, flores, fibras, algodão, linho... Quando falamos quem pode aumentar a produção, realmente o Brasil é líder , podemos dizer quezer que estamos produzindo sem derrubar floresta, sem assorear rios, sem escravizar o trabalhador rural. O cenário é positivo.

 

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