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CENA ANTONIO LUIZ FANCELLI Doutor em Solos
“A agricultura precisa de mais esforço”
09/02/2008 - Doutor em solos e nutrição de plantas, Antonio Luiz Fancelli é um defensor do
plantio direto para garantir a qualidade do solo. Agrônomo e professor da Universidade de São Paulo (USP), Fancelli é também especialista em produção de sementes e mestre em fitotecnia. Ele esteve em Três de Maio para uma palestra onde falou sobre produtividade e sustentabilidade. Nesta entrevista, ele revela como o produtor pode promover uma melhor utilização da sua propriedade com diversificação e uso adequado de adubação e tecnologias.
Cooper – Produtividade e sustentabilidade são temas que estão ganhando espaço no agronegócio. Como eles se relacionam?
Fancelli – A questão da produtividade e da sustentabilidade é um assunto bastante atual. De forma bastante objetiva, nós destacamos os aspectos relacionados com as bases da sustentabilidade. Dentre esses pilares da sustentabilidade, está o que é mais discutido e que desperta mais interesse por parte do produtor: a importância da diversidade de culturas e, dentro disso, o que significa a diversidade para a agricultura gaúcha e brasileira. Ela pode ser entendida como coisas diferentes que estariam presentes na mesma área. Então, podemos dizer que, numa lavoura de soja, em que predomina apenas a espécie soja, nós temos uma simplificação bastante grande do uso desta área. E esta simplificação extrema pode contribuir também com instabilidade produtiva, com perda de produtividade e rentabilidade, comprometendo a sustentabilidade da propriedade.
Cooper – Como pode ser feita essa diversificação e quais suas vantagens?
Fancelli – No exemplo da soja, precisaríamos promover a diversificação do ambiente, que pode ser feita no espaço, como, por exemplo, intercalando algumas faixas de milho, ou de outras culturas de verão, na lavoura de soja. Com isso, iríamos reduzir a incidência de pragas e de doenças, porque se estabelece uma barreira física. Mas eu diria que o mais importante, o mais eficiente para as condições do Rio Grande do Sul é a rotação de culturas, que é a diversificação no tempo. Para o agricultor, se realmente ele almejar continuar produzindo bem soja, a rotação de culturas é fundamental. E vamos aproveitar os próximos anos, em que o milho deve estar com o preço bastante elevado, para utilizarmos como um elemento de rotação de cultura para continuarmos a produzir cada vez melhor a soja.
Cooper – Como o produtor deve tratar a questão da adubação visando sustentabilidade e produtividade?
Fancelli – A agricultura é um sistema aberto. Nós produzimos, e a produção é consumida muito distante de onde foi produzida. Com isso, muitos nutrientes são exportados. Para repor isso, é fundamental fazer uma análise de solo para ver qual é o nível de fertilidade atual, para que a reposição seja feita de forma efetiva, uma adubação racional. Uma outra coisa importante também é a aplicação adequada da adubação, especialmente com relação ao fósforo, que tem um aproveitamento bastante baixo. É importante dar uma atenção especial ao nitrogênio. Eu fico muito preocupado quando verificamos que a utilização do nitrogênio na agricultura brasileira como um todo é feita com aplicação de uréia em cima da palha de aveia, por exemplo. Isso proporciona uma perda bastante elevada. Então, a agricultura precisa ter um pouco mais de esforço e preocupação em proteger, em utilizar melhor esse nitrogênio, e todos os outros nutrientes, com a adubação como um todo. Ideal é, dentro do possível, incorporar esse nitrogênio, ou pelo menos utilizar fontes de nitrogênio que não sofressem uma volatilização muito grande.
Cooper – Qual seria a forma ideal de aplicar?
Fancelli – Com relação ao nitrogênio, poderíamos trabalhar de duas formas: uma é realizar a adubação de cobertura incorporada, outra é utilizando uma nova modalidade que está surgindo, que é a aplicação do adubo cerca de dez dias antes da semeadura. Assim, o agricultor não teria muitos problemas com a falta de tempo ou com as condições climáticas desfavoráveis. Sendo aplicado antes de plantar, pode ser até com solo seco. O agricultor poderia aplicar e, incorporando esse nitrogênio, aguarda entre dez e quinze dias para efetuar o plantio.
Cooper – Como o plantio direto e a agricultura de precisão podem ser utilizados neste contexto de sustentabilidade?
Fancelli – Sem dúvida, o plantio direto na palha é um sistema fundamental, e é um sistema mais inteligente para as regiões de clima tropical e subtropical. O agricultor deveria realmente cultivar o plantio direto de uma forma bastante eficiente, porque é um sistema que aumenta muito a disponibilidade de nutrientes e, sobretudo, a disponibilidade de fósforo. Para que o agricultor tenha produtividade satisfatória, é preciso ter uma condição de produção bastante favorável, e essa produtividade só será –e só continuará – sendo sustentável se tiver todos os cuidados com adubação, rotação e manejo. A agricultura de precisão é fundamental para isso. Se conjugado à utilização de um sistema de amostragem efetivo de solo e à utilização da agricultura de precisão, vai ter um melhor resultado, uma melhor eficiência na nossa adubação. Esse é um sistema que já está consagrado em países como os Estados Unidos.
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