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PENSAMENTEAR
Sixto Carlo Bombardelli
sixtocarlo@terra.com.br
Onde está meu casaco?
“Aquilo que eu não sei é minha melhor parte”.
(Clarice Lispector)
15/11/2008 - Sim, claro, um casaco. Há uma proximidade muito forte entre o simbólico e o real. Afinal de contas, ambos trabalham com a invenção do mundo. De indagação em indagação, o mistério se mantém. Uma das coisas que mais me fascina é olhar, por exemplo, para a aparência das pessoas. O que elas querem dizer com aquilo que aparentam ser, apesar de nem sempre mostrarem o que são de fato. O que somos lá dentro, no escuro de nós mesmos. Onde a luz não nos revela e podemos então nos esconder atrás de nossas justificativas cotidianas. Não somos o resultado de uma intencionalidade cuja conseqüência seja sempre aquilo que estava idealizado no ponto de partida.
Vez ou outra tenho vontade de pedir para as pessoas deixarem seus casacos no cabideiro antes de iniciar uma conversa. É pedir demais, concordo. O que eu quero é sinceridade, apenas. Eu a respeito. Quero ser respeitado por ela. De outro lado, querer transparência é uma ilusão, acredite. Não é que se deva impedir que cada um de nós se mascare como deseja, mas parece cada vez mais impossível que as posturas pessoais sejam coerentes com aquilo que somos. Cautela agora: cuidado com a realidade, porque ela se alimenta e movimenta-se usando nossas intenções. Fazemos aquilo que desejamos e, nem sempre, aquilo que pensamos. E o que desejamos? O melhor para nós, dentro de um processo constante de auto-afirmação social que nos empurra, sem rebeldia, para a busca de satisfação à nossa ambição. Em regra, mais vale a aparência. O casaco. O que estiver embaixo que se esconda. Um terapeuta ou um antidepressivo que tente depois desatar os nós.
“Falo aquilo que eu quero”. (ou que mais me convém)
“Defendo minhas idéias”. (que podem ser importadas)
“Julgo por mim”. (ou para ganhar destaque dentro de um grupo)
São alguns exemplos do quanto somos relativos quando pretendemos ser objetivos. Aí, por isso, é que o humano tem se lambuzado por maquiagens que o distanciam da possibilidade da autocrítica. E o efeito é como uma bola de neve. Bravo! Complicamos o simples, que seria apenas viver falando aquilo que é verdade. Sendo aquilo que somos. Gostando de quem amamos, sem conveniências. Do contrário, para os cristãos, a fila do confessionário será sempre longa. Retire sua senha, por favor.
O poeta curitibano Paulo Leminski é considerado por alguns críticos como um maldito. Por ele ter vivido sem falsas palavras. Sua obra é tocante e autêntica. Ácida até, pois diz só verdade. É dele a frase que guardo com estima para minha vida de caminhante: “Isso de a gente ser aquilo que a gente é ainda vai nos levar além”. Cito-a sempre que possível, bebo de sua beleza quando estou em conflito e a divulgo para amigos como forma de conforto.
Somos grandes. O que nos desafia é manter nossa postura social também grande, porque a dificuldade não é ser ou fazer. É ser feliz (mesmno!) com nossas escolhas. A bobeira pode ter lugar para às vezes sermos sisudos ou disfarçadamente risonhos. Desde que não seja a regra. O casaco.
Roupa de orgulho
Este é o Brasil de bombacha
É a saga da raça guerreira
Nos fundões desta pátria se acha
Um gaúcho abrindo fronteira.
(Os Monarcas)
08/11/2008 - Dor nas costas, ou dor lombar, é causa freqüente de procura por consulta médica. Resolvi-me automedicar, apesar deste termo não se aplicar a mim devidamente. Como não posso usar algum antiinflamatório via oral, resolvi apelar para uso intramuscular. Uma injeção, como se diz. Olhei no armário da farmácia doméstica, mas nada útil para meu caso. Nenhuma amostra grátis. E não havia posição de alívio, a dor continuava e possivelmente não iria me deixar dormir. Ficar doente nunca é bom. A gente sempre quer ser onipotente, ceder à limitação não nos é agradável.
Busquei na memória o telefone de alguma farmácia com tele-entrega gratuita. Um conforto moderno e um diferencial comercial. Em seis minutos, meu interfone já denunciava a chegada do entregador. Muita eficiência, apesar de não ser a regra. Quando abri a porta para receber e pagar a encomenda, percebi que o entregador usava bombachas. E nem era Semana Farroupilha. Logo perguntei: gostas tanto de pilcha? Ele então respondeu: “Uso bombachas toda sexta-feira, porque hoje é o dia da bombacha. Até acho que deveria haver aqui uma lei municipal como há na minha cidade natal, para indicar o uso a todos.”.
Aprendi algo novo, pois não sabia que o sexto dia da semana era oficialmente o Dia da Bombacha. Não tenho um conhecimento muito detalhado dos costumes históricos de gaúcho tradicionalista, admito. Nunca usei uma bombacha depois de um desfile de 7 de setembro quando minha turma de jardim de infância desfilou com pilcha. Guardo comigo a guaiaca até hoje, de recordação. Descobri, por pesquisa, depois de já ter aplicado a medicação, que no Rio Grande do Sul, a bombacha, juntamente com toda a indumentária característica do gaúcho, é considerada traje oficial desde 1989, quando foi aprovada a Lei Estadual da Pilcha. De acordo com a Lei, a pilcha gaúcha - o conjunto de vestes tradicionais tanto masculino quanto feminino - pode substituir trajes sociais - ex. terno e gravata para os homens e vestidos de tecidos mais nobres para as mulheres - em qualquer ocasião formal que ocorra no Rio Grande do Sul, inclusive reuniões das Assembléias Legislativas estadual e municipais, desde que se observem as recomendações ditadas pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG). O nome foi adotado do termo espanhol “bombacho”, que significa “calças largas”.
Que é bonito não se pode negar. Emociona apesar de eu imaginar que o uso rotineiro dificulta um pouco a vida moderna, principalmente no caso das mulheres. Fica aí uma sugestão, do funcionário da farmácia, para os futuros vereadores. Mas será que uma lei é preciso para que a cultura de um povo se mantenha viva? Quando a aculturação de nossos jovens sofre forte influência de padrões externos e voláteis, não sei se uma lei ajudaria na enculturação. Talvez. É uma questão de opinião.
Minha dor silenciou.
Dinheiro na mão é vendaval
“Oh, peixe, peixinho dourado, cuide bem de si!
Porque são tantas as armadilhas,
tantas as redes armadas para você neste mundo.”
(provérbio mexicano)
01/11/2008 - Toda esta agitação mundial decorrente do “nervosismo” do mercado econômico, suas instabilidades e repercussões diretas na vida de cada um fizeram o célebre escritor português José Saramago afirmar, em entrevista durante o lançamento de um filme baseado em um de seus melhores livros (Ensaio sobre a cegueira): “Cada vez mais penso que Marx estava certo. Onde estava afinal este dinheiro todo que agora está sendo usado para socorrer bancos para que a crise não piore? Que dinheiro é este, qual sua origem afinal? Todos estes bilhões deveriam estar a serviço da vida, o tempo todo e não nos bolsos de alguém”. De tudo que li sobre a atual crise, sobre paradigmas capitalistas e uma inevitável recessão, com certeza tenho que concordar com a coerência de Saramago.
Nós, míseros cidadãos, diante de tudo isso, somos apenas peixes. Usam e abusam de nós, usando iscas variadas. Como na fábula Pinóquio, na qual o maior engole o menor, nossa vida familiar, e muitas vezes pacata, é sacudida por um bombardeio de números e gráficos. Sobe, desce, Desce, desce. Desespero geral. Sobe um pouco, apreensão. Quando o capital investido na bolsa de valores some sem deixar vestígios é que se percebe que a ganância tem seu custo. Que aparências financiadas por bancos são virtuais.
E vida, não tem seu custo maior? O desenvolvimento humano local necessita de recursos contínuos e crescentes, focados em ações governamentais que chamamos de políticas públicas. Vamos aproximar nosso olhar. Quando a CPMF não era investida em saúde, quando certos empresários superfaturam serviços e produtos em licitações e, pior, se mostram socialmente como modelos de empreendedorismo e ética, quando honestidade não é mais pré-requisito em negociações... A afirmação de Saramago se torna mais contundente ainda.
O mundo tem nações muito pobres. Países têm Estados que oferecem péssimas condições de vida. Algumas cidades não têm projetos de desenvolvimento econômico sem que o desenvolvimento das pessoas venha em primeiro lugar. Quem administra e orienta a vida pública precisa se perguntar sobre estas questões. E agir. Onde houver a vida, que ela seja privilegiada. Muitos que choram com as perdas na bolsa de valores olham com desinteresse a pobreza de outros. Como se a vida não fosse única, como se, num efeito cascata, quando um dominó cai, os seguintes não cairão igualmente. Engaço caro.
No orçamento doméstico, a vida é real. Primeiro a comida, educação e roupas para os filhos, luz, gás e água. Depois, se der uma reserva para uma surpresa. Eis o kit básico da maioria da população brasileira. Assim fácil, coerente e verdadeiro. Um deslize e os juros nos comem. Por que então não é esta a lógica que movimenta a destinação dos recursos excedentes nos diversos investimentos. Não estaria na hora de Bancos investirem menos na especulação financeira e mais no setor social, com metas e através de programas fiscalizados. O suficiente para cada um já não é o bastante? Precisamos mesmo de tanta sede por acúmulo de capital? Se uns manipulam o vai e vêm do dinheiro, outros- a maioria- não irão vê-lo.
Dinheiro na mão é bom, sempre. Todos gostam de acesso ao conforto da vida moderna. A questão que se coloca é porque muitas instituições financeiras têm endereço físico para captar, captar e captar. Que tal, por exemplo, um grande banco privado trabalhar em parceria com o poder público e financiar a reestruturação de áreas mais pobres de um município. Seria esta sua contrapartida mínima e seu compromisso visível com a sociedade. Apresentar balanços anuais de rendimentos recordes para a maioria de nós é fantasia.
Precisamos de fôlego e oxigênio para não cair em armadilhas. Muitas delas invisíveis. Tenhamos coragem para admitir nossos erros.
Os românticos
25/10/2008 - Desbravando a temperamento comandado pela testosterona, o homem romântico é o tipo predileto das mulheres. Fiel e romântico, como muitas usam dizer. Atencioso, mas viril. Às vezes embaralhada como o conteúdo de sua bolsa, a cabeça de uma mulher tem lá seus mistérios. Eu chego a arriscar que a maioria das mulheres nasceu sob o signo de gêmeos, devido à dualidade de seus sentimentos e afetos. Durante quase um mês são elas, na fase da tensão pré-menstrual elas são outras e, durante a menstruação, só elas sabem o que são. Calma, não joguem tomates.
A mulher, arrisco adivinhar, gosta do homem romântico não porque ele a faz se sentir amada, mas porque ele faz o mundo dela se sentir amado. Ela, na verdade, quer que o homem a entenda sem cobrar algo em troca. Para alguns, tudo bem. Porém, para um bom tanto dos machos, isso não é justo. Não dá para negociar um pouquinho, meu bem?! A confusão que gera motivo para ela querer discutir a relação sempre está alicerçada na dúvida feminina: apesar de não se sentir inteira no relacionamento, dá para exigir tanto? No casamento, os problemas não desanimam, mas nos ensinam novamente a casar e isso anda complexo demais para ser resolvido emocionalmente.
Algumas mulheres têm atração quase paranóide por homens safados. O que é um homem safado? Ahg! Pergunte para um deles, não sei ao certo. Imagino ser aquele que sabe enganar duas ou três ao mesmo tempo sem que elas de fato se incomodem por isso, mesmo sabendo de tudo. Como tenho uma hipótese, nada comprovada, de que o casal que se acerta no fundo se parece, mulher que gosta de ser enganada é porque gosta de enganar. Safada gosta de safado, simples assim. Desculpe se doeu.
Quando certa vez recomendei para uma mulher, em consultório, que se mantivesse mais em casa para acompanhar a vida de sua filha adolescente, obtive uma resposta direta e sincera: “Tudo menos isso, meu mundo não está dentro da minha casa.” É bom lidar com pessoas honestas, sabemos então como nos comportar. Neste caso, a depressão de uma adolescente relacionava-se à negligência do papel da mãe, que optou por festas e boemia. Caso para o Conselho Tutelar. Este tipo de mulher não se deixa ser amada ou já sofreu o bastante para a um amor se prender. Chama um terapeuta, por favor.
E as caladas e submissas? Algumas mulheres mais velhas, nascidas nas décadas de 40 ou 50, viveram os desígnios da repressão e mantêm traços em sua personalidade devido a isso. Foram criadas para obedecer ao macho, que tem o poder de comandar a relação. Muitas estão satisfeitas por isso e até preferem uma vida sem o risco da responsabilidade. Outras sofrem caladas em um mar de tristeza e dor que se manifesta em sintomas desconexos. Virar a mesa, com todo o custo disso, é para poucas corajosas. Nos casos de violência, olha a Maria da Penha aí gente!
Espero ter sido respeitoso com todas. O que eu penso de fato?
O mundo seria bem melhor se todos os homens fossem românticos. De cinismo, dissimulação, falta de respeito, aparência e solidão estamos fartos.
Um dinossauro na balada
18/10/2008 - O cartão anunciava: balada no Guaíra. Nada convencional para um convite de festa de aniversário. Nem citava que a razão da comemoração fosse mais um ano de vida de minha sobrinha. Isso, percebi, é coisa do passado. Ou de criança. A juventude quer crescer e inventar seu jeito de ser. Sua moda. Vamos nessa. Eu e minha família fomos os primeiros a chegar, pouco antes do horário descrito no convite. Realmente os tempos mudaram muito em termos de festinhas de aniversário, para melhor. Vou explicar o motivo.
Na entrada, segurança com lista de convidados. De tradicional, só os balões. O restante que vi, senti e aproveitei era tudo diferente. No salão, tudo combinava mais com uma discoteca que com cenário para bolo, velas para assoprar, brigadeiros, canudinhos recheados, torta de bolacha Maria, cachorro quente e pastel. Imagin: telão, globos de espelhos, jatos de luz, fumaça colorida e aromatizada saindo pelos cantos (gelo seco?), fitas pendentes, mesas decoradas com mimos para a galera se divertir: pingentes luminosos com luz piscante, colares fluorescentes, enfeites divertidos de cabeça, enfim, o que mais importava era a festa e não apenas a habitual comilança. Sou do tempo em que festa de aniversário era sinônimo de muita comida e reunião de parentes. Fiquei impressionado por me sentir no início muito deslocado. Um dinossauro rabugento. Um brontossauro. Sou pouco, ou nada, acostumado a ir a festas juvenis. Geralmente deixo minha filha na entrada e a busco antes da meia noite. Desta vez, me permiti. E aproveitei como criança. Ops! Como um adolescente, se não minha linda sobrinha se aborrecerá.
Já havia passado um bom tempo do horário marcado e só havia chegado adultos. Sentamos todos na mesma mesa e começamos a provar drinques variados (os alcoólicos estavam permitidos apenas para nossa mesa) e brincar entre nós. O ambiente era de penumbra, para fazer “um clima”. Um amigo chegou e disse: “Se soubesse que era assim tinha trazido um foque!”. Todos riram. Quando percebi as mesas já estavam todas ocupadas por convidados que deveriam ter entre 13 e 20 anos. Todos sentadinhos até aquele instante. Comemos batata frita, mini hambúrguer, mini pizza, morangos envoltos com chocolate, porções individuais de mousse de maracujá, chocolate e leite condensado. Tudo muito bem apresentado e dentro do clima. Nada de torta. Nada de velas. Quando a música começou, com um show admirável de som, luzes, cores e animação, nós adultos não nos fizemos de tímidos: caímos na balada! Completamente fora de forma, admito. Ficamos sós no meio do salão, para olhares admirados dos adolescentes que mastigavam salgadinhos e docinhos regados à refrigerante. A música era de excelente qualidade.
Então veio a hora da verdade: logo me senti cansado. A gurizada depois encheu o salão e dançou sem parar ritmos variados. Imagine você: descobri que há uma tal “dança do créu” com cinco velocidades, para meu desespero ignorante. Exceto dessa, das outras músicas gostei. Muito diferente do meu tempo, no qual fazíamos reuniões dançantes em garagem, embaladas por discos (LPs) das trilhas sonoras das novelas. Já no meio da festa perguntei para minha cunhada: “Não vamos cantar os parabéns?”. Eu estava sentindo falta disso, que fazíamos antes de tudo iniciar.
Vi uma juventude animada. Um que outro rapaz tímido que ficou sentado a noite toda. Raridade. A turma sabe se divertir. Já estou à espera do próximo convite.
Um motor no popa
11/10/2008 - I. Admiração. Eis uma palavra virtuosa, exigente e difícil de ser nomeada com verdadeira intenção. No entanto, em outra concepção, vou usá-la: fico admirado com a capacidade humana de criar boatos, de aumentar fatos para então ganhar vantagens e de como isso vai virando uma bola de neve que não faz bem nem a quem começou com a brincadeira.
Na semana passada, fui cobrado publicamente por algo que supostamente teria dito. Vi ódio nos olhos de meu inquisidor. Não o culpo, pois ele estava convicto de estar falando a verdade. Porém, uma verdade criada a partir do que teriam lhe dito. Nós, gente, temos o direito de manifestar nossa indignação diante daquilo que discordamos ou nos ofende, mas isso precisa ser confirmado realmente, não apenas de ouvir dizer.
Um boato é uma notícia muito propalada, muitas vezes infundada, cuja fonte não é verídica e que circula dentro de um grupo e que não é oficial. Não é um fato, é um factóide, ou seja, uma distorção da realidade. Nesta campanha política, as esquinas foram pulverizadas por boatos e muito foi respondido, escreveu-se e se repetiu... sem que a realidade dos fatos fosse buscada. Cada um concorda com o que lhe é mais útil, para confirmar a estranheza da natureza humana. Adiante, a roda gira.
II. Sugestão: todos deveriam ser candidatos alguma vez. É uma possibilidade de encontro com um mundo diferente, repleto de surpresas, conflitos e abraços. Uma chance de conhecermos rostos diferentes, temperamentos diversos, pessoas que conhecíamos apenas “de passagem”. Também um esforço físico ímpar, como fazer um período intensivo de academia. Fiz muitas amizades e sou grato por todas elas. Convivi com pedidos de ajuda, verdades, inverdades, honestidades, orações, apelos, reconhecimento, etc. Sob à força da emoção, testemunhos e revelações. Sempre vale. Desde que a razão se mantenha como âncora e não nos violentarmos.
III. Estou de volta a esta coluna como seu titular. Tive a honra de ser substituído nestes últimos meses por uma interina que se revelou, possivelmente, melhor que eu. Artimanhas da vida. Quero agradecer ao retorno que obtive nas ruas e casas, durante a caminhada da campanha política, sobre Pensamentear. Em muitos lares que visitei, as pessoas queriam falar sobre meus artigos antes de falar em política. Textos antigos que marcaram suas vidas, histórias reveladas neste espaço que encontraram forte identificação com vivências familiares... Isso foi muito bom de ouvir. A partir do cotidiano mais singelo, reinvento o dia-a-dia para meus leitores. Eis a essência de um cronista. Não para explicar nem complicar, mas, sem pretensão secundária, expressar contradições, brilhos de nossas vidas e o quanto a realidade é bela. Com liberdade, escrever é ter coisas para dizer. Como disse Pablo Neruda, escrever é fácil: você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio, você coloca idéias.
Um motor no popa
Sirlei J. Hepp Bombardelli - interina
sirleibombardelli@gmail.com
03/10/2008 - Você está motivado? Para trabalhar, amar, lutar, recomeçar, viver... Muito já foi dito e escrito sobre motivação. Também como muito já foi vendido em função dela, seja através de livros, cursos ou palestras. Mas será que uma pessoa literalmente pode motivar outra? Há controvérsia.
A corrente mais sensata defende que a motivação vem das necessidades humanas (necessidade = motivo) e não daquelas coisas que satisfazem a essas necessidades. Nós humanos temos necessidades intrínsecas e só nossas, cada um tem as suas, que podem estar invisíveis ou ativas, mas existem porque a pessoa existe. As necessidades são os únicos motivadores. A motivação é natural, vem do interior de nós. Logo, se as necessidades são os motivadores do comportamento e se não é possível criar necessidades em outra pessoa, então a conclusão lógica é de que uma pessoa não pode motivar outra.
Também podemos dizer que um indivíduo não estará motivado para se comportar, a menos que tenha uma necessidade energizando seu comportamento. Algo atrás do qual possamos correr, um norte à frente, um motor na popa. O único objetivo do intelecto é encontrar satisfação para as necessidades da pessoa, detectando aquilo em que uma necessidade se baseia. Que necessidades afinal? McGregor e Maslow listaram: necessidades fisiológicas, de segurança, sociais e de auto-realização. Quando estamos lutando empurrados por elas estamos motivados. E o que isso tem haver com prazer, força, dinamismo e bom-humor? A resposta: pouco.
O que provoca prazer para viver não é a motivação, mas a satisfação. Satisfação é o atendimento de uma necessidade. Quando conseguimos eliminar uma necessidade (de terminar um trabalho, por exemplo), ficamos satisfeitos. O efeito de um fator de satisfação é diminuir a tensão que havia antes de conseguirmos vencer a necessidade. Dou mais um exemplo: todos nós precisamos de casa para morar. Pois bem, a motivação é justamente esta constatação da necessidade de residir com segurança. Isso nos impulsiona, e só isso. Não adianta ler vários livros sobre a importância do ser humano viver em uma casa prórpria. Quando você estiver conseguido suprir esta demanda interna, que nem todos têm, virá a satisfação pelo resultado conseguido. É possível oferecer fatores de satisfação, tais como água, comida, reconhecimento e progresso às pessoas, mas isto é satisfação e não motivação.
Livros, músicas, exemplos de vida e palestras podem trazer uma satisfação (momentânea), mas não motivam. Eles têm dificuldade em criar em você uma necessidade, pois só você tem esse poder. Isto explica porque durante uma palestra dita “motivacional” você riu bastante, se divertiu, teve boas idéia para mudar sua vida...Mas isto não durou. Foi só dormir uma noite e parece que a vida lá fora é outra. No outro dia tudo continua igual.
Segundo Leonardo Boff, felicidade inclui o poder de saborear todos os saberes. E todos eles revelam algo do ser. Em cada dia, em cada detalhe, a realidade carrega um mistério e tem um outro lado. Quem conseguir entender todas estas dimensões conseguirá mais satisfação, segundo o teólogo.
O que devo fazer? Evite responder “o que eu quiser”, vá à busca daquilo que lhe dá prazer com coerência e responsabilidade e, então, construa um caminho para alcançá-lo. Pule fora da solidão e da monotonia cotidiana. Invente saídas.
E por falar em nós
Sirlei J. Hepp Bombardelli - interina
sirleibombardelli@gmail.com
28/09/2008 - “ Aaaiiiiiiiii... o de baixo é meu!”
Escuto o grito estridente de minha filha enquanto disputa com seus irmãos vez e voz nas brincadeiras. Algo tão freqüente quanto esperado em qualquer casa com crianças, ainda mais em dias de chuva ou tardes sem luz. Quando pisam na gente, precisamos sempre é gritar mesmo, com berros demonstrar que não somos passionais nem coniventes.
Depois que deixamos o conforto quentinho do útero materno, nunca mais tivemos sossego. Foram nove meses de férias literais, quando não precisávamos trabalhar, nem pagar contas e muito menos derrubar um leão por dia para sobreviver. Relax absoluto e protegido, venerado e cuidado. Mas a vida não é assim, como bem sabemos. A angústia do parto nos ensinou que precisamos berrar para respirar, caso contrário nos sufocaremos sem ajuda externa. Nossa independência depende sempre mais de nossas atitudes que da conjunção dos astros, apesar de teimarmos em reclamarmos o contrário.
Enquanto a criançada se afofa no sofá entre pisadas nos pés, beliscões e puxões de cabelo, treinam para a vida adulta. É lá, no platô de nosso ciclo vital, que somos verdadeiramente e constantemente driblados e testados. Há os que nem percebem isso de tão acomodados que estão. Quem vive em sua concha, seu caracol, sua zona de conforto se sente imune e protegido. Engano, pois o comodismo prejudica bem mais seu criador. Ao nos escondermos atrás de rotinas empoeiradas, colocamos nossa saúde mental à beira do precipício e esquecemos quais são nossas necessidades reais. A motivação, aliás, só existe quando agimos para satisfazer uma necessidade concreta, como a de defesa. E necessidades descobrimos arriscando, fazendo história, indo na chuva para se molhar. Quando não fazemos isso, infelizmente assumimos as necessidades inventadas pelos outros como sendo as nossas. Resultado final: frustração.
Uma criança geralmente não leva desaforo para casa, quer sempre resolver tudo no momento exato que os fatos ocorrem. Ao se defender, identifica-se. Quando ensaia reações, constrói a arquitetura de seu comportamento nas ações futuras. O aprendizado disso chama-se CARÁTER, um dos componentes da personalidade. Ele não nasce conosco, ao contrário do temperamento. Precisa ser moldado, por isso a importância das interações sociais em nosso desenvolvimento. Quando a mãe me dizia “Não!”, estava apenas me colocando de volta nos trilhos. Hoje, dou graças a muitos “nãos” ouvidos.
Nossa emancipação da infância está quase pronta quando assumimos o controle de nossos impulsos, dosando vontades, alimentando necessidades e nos defendendo sabiamente quando necessário. Às vezes, regredimos e somos reativos como criança de 3 anos ou inseguros como adolescente. Mas sempre há tempo para uma virada de página, antes do final desta história.
De tudo que experimentamos na vida, talvez muito importante seja a análise do que podemos e devemos fazer de nós mesmos. Como diz a filosofia: quem não se analisa não se conhece. Um ótimo final de semana a todos!
Livros para todos
Sirlei J. Hepp Bombardelli - interina
sirleibombardelli@gmail.com
“Por isso na impaciência desta sede de saber,
Como as aves do deserto,
O livro caindo n´alma
É germe – que faz a palma,
E chuva – que faz o mar.”
(Castro Alves)
20/09/2008 - Guardo ainda os velhos livros que herdei de meu pai, do tempo em que ele foi aluno colegial. Cresci com a imagem de meu pai lendo todas as noites na penumbra da casa. Não tínhamos conforto material, mas havia livros. Entre alguns, a 1ª edição e 1ª impressão da obra O Tempo e o Vento (1961). Há algumas obras impressas na Alemanha, como “Ich Ging, weil ich dich liebte” de Eva Burgstedt (1958) . Vamos adiante, na busca da razão da coluna desta semana. Quero sugerir, humildemente, alguns títulos de livros para minhas leitoras em especial. Isso mesmo, às mulheres. De mulher para mulher. Livros que me trouxeram uma nova visão das coisas, um despertar e que me ajudaram a ser mais crítica comigo e com a vida. E também, alguns livros que me confortaram naqueles momentos de solidão que só as mulheres sabem o que significam.
- Meninas Inseparáveis (Lori Lansens,2005): um livro imperdível sobre a vida de duas irmãs siamesas, que nos ensinam fundamentos como companheirismo, tolerância, identidade e amor.
- Prata do tempo (Letícia Wierzchowski,1999): com o tema central as relações familiares, este livro desta escritora gaúcha é o meu preferido. Não há como não se encantar com uma viagem sem parada, sem descanso, pela magia da vida em família. Em uma linguagem labiríntica, mas de fácil compreensão. Você se sentirá lendo diante de um espelho, podes ter certeza.
- As 100 melhores histórias eróticas da literatura universal (Flávio Costa, 2003):é uma notável coletânea de textos que falam de Eros;que move o mundo, é a força vital que nos movimenta desde a infância e que nos ensina a ser gente. Divertido e picante em muitos momentos, pode ser uma leitura para o casal que quer conhecer a diversidade de visões, do oriente para o ocidente, sobre o erótico em nós. Muito bom.
- Mamãe e o sentido da vida (Irvin Yalon,2008): são histórias vivenciadas pelo autor, que é psicanalista. A primeira, que dá título ao livro, é singular. Remete-nos ao colo de nossa mãe e questiona o mundo que nos arrancou dele. “Como eu me saí, mamãe? Como é que eu me saí?” É a pergunta que a personagem faz antes de sua morte, tentando buscar um tipo de veredicto que só uma mãe pode dar.
- O menino que se trancou na geladeira (Fernando Bonassi, 2004): este é daqueles livros que aparecem por acaso na nossa frente e que acabamos agradecendo por isso. Uma leitura difícil, em meio ao caos em que vive um menino personagem que não consegue se comunicar. Instiga cada um de nós quando não sabemos o que fazer nem para onde ir.
Para finalizar esta amostra, um livro para quem é mãe: Cá entre nós (Maria Maldonado, 2006) reúne textos desta psicóloga que busca na família as respostas aos dilemas diários. Amor, carinho e respeito são os ingredientes indispensáveis para que pais durmam com a sensação de dever cumprido. Para a autora, estamos todos mergulhados nos dilemas da modernidade, que nos trazem mais dúvidas e perguntas do que respostas.
Não perca tempo, motive-se a ler.
Ah! Eu sou gaúcha!
Sirlei J. Hepp Bombardelli - interina
sirleibombardelli@gmail.com
“Meus olhos teimam em beber distâncias,
na busca antiga de varar caminhos.
Onde porteiras não limitam sonhos,
nem são cativos os que são sozinhos.”
(Jaime Fernandes)
13/09/2008 - Um fio de história nos orgulha e enaltece. Acima de qualquer outra questão, bem lá no alto, onde voam os quero-queros. Tingidos por vermelho, verde a amarelo nossa bandeira é o manto maior. Também nosso sol, que aqui no sul é testemunho do quanto nossa gente é guerreira. Aos outros minhas desculpas, mas ter nascido gaúcho (a) é fundamental. Ufanismo exagerado ou orgulho que corre no sangue farrapo? Não é um desvio de caráter, é um jeito.
Ser gaúcho não é apenas vestir uma pilcha, é preciso vestir respeito, valores, igualdade e amor pela nossa cultura. Não precisa dançar em CTGs ou saber encilhar cavalo. Vou além, é ter na alma a força para erguer-se quando necessário, olhos atentos para frente; é simples de modos, mas reto de caráter; é humilde em ambições, mas exagerado em ideais; é um respeitador e o primeiro a proclamar a igualdade, quando todos sentam juntos para matear; é um batalhador, que não desiste jamais; é um rebelde, que nunca aceita ser dominado; é um bravo, que não foge de uma luta por ser difícil. Aliás, somos todos gaúchos, nenhum mais gaúcho que o outro. Como não ter orgulho de tanto?
Tenho uma amiga que reside em Florianópolis e foi colega de faculdade. Depois de ter vivido seis anos na terrinha, sempre dizia: é chato ser gaúcho. E defendia, sem medir palavras. Com a resposta pronta, os argumentos dos gaúchos da turma eram incontestáveis. Ela estava errada. Cito algumas razões para nossa elevada auto-estima:
- Somos negros, brancos e guaranis na essência e nos orgulhamos de nossa história memorável;
- Somos a terra das mais belas misses Brasil;
-A melhor modelo do mundo é gaúcha;
- Nossa literatura é grandiosa e tem a bravura de um certo capitão Rodrigo;
- Alguns dos melhores jogadores de futebol do mundo são gaúchos;
-Temos dois times Campeão do Mundo de futebol;
- Gostamos de torrada e não de misto quente;
- Amamos nossa capital, debruçada sobre o Guaíba;
- O maior centro de transplante do Brasil é no Rio Grande do Sul.
- O melhor escritor de humor refinado é gaúcho, filho de Érico;
- Nossa geografia é diversificada e de encher os olhos;
-É um estado onde o gaúcho chama sua mulher de ‘prenda’ que significa algo precioso, uma jóia.
-O melhor futsal do Brasil e possivelmente do mundo é gaúcho.
- Os melhores indicadores de saúde deste país são nossos;
-O estado com o maior número de títulos nacionais no futebol é o Rio Grande do Sul.
-O melhor padrão de vida do Brasil é no Rio Grande do Sul.
-O Centro-Oeste do País, é uma potência agrícola graças aos gaúchos que emigraram para lá.
-O prato mais apreciado e popular do país é o churrasco.
-São gaúchos muitos dos melhores profissionais de comunicação que as grandes redes nacionais de comunicação vêm buscar aqui para qualificar os seus quadros.
-Dos 105 anos de República brasileira, gaúchos (Getúlio, João Goulart, Médici e Geisel) governaram o país durante 29 anos (quase 28% do tempo).
Conecto, logo existo
Sirlei J. Hepp Bombardelli - interina
sirleibombardelli@gmail.com
06/09/2008 - Depois que se inventou o computador e a navegação pela internet, nada ficou em seu lugar. Se nos distrairmos, a vida nos ultrapassa em qualquer rota que fazemos. É como se não pudéssemos mais ignorar a grande consciência que rege as coisas. Estamos no meio, optando ou não. Precisamos e dependemos cada dia mais de uma comunicação tão rápida quanto seu potencial de duração. Na mesma velocidade que se faz, se dilui.
Com o celular, por exemplo, estamos em todos os lugares mas não estamos de modo pleno em lugar algum. Com o correio eletrônico, o dito “e-mail” ou torpedo, não há tempo nem lugar. Já se tornou hábito: “Qualquer coisa me liga no celular”. Ou também: “Me envia um e-mail sobre tudo que estás falando para eu poder analisar melhor”. É um passo que a humanidade deu. Conheço pessoas que carregam dois a três aparelhos de telefonia móvel. Tripla conexão, tripla existência. Tudo pela eficácia e desejo de onipresença?
E toda solução traz consigo um novo problema, como se diz. Ninguém quer dar chance ao acaso. Nada pode dar errado. Comunicação total com qualidade total! Ufa! E não há uma vaguinha no paraíso?
Expressões contemporâneas:
Conectando...
Autorizando...
Ver mensagens.
Recebendo mensagens...
Você recebeu novas mensagens.
Pronto, tudo resolvido. No mesmo instante.
Este telefone está fora de sua área de cobertura ou temporariamente desligado.
Relaxa porque lá vem uma frustração.
Quando menina, eu colecionava papéis de carta em uma caixa de camisas que eu mesma encapei com um plástico rosa. Gostava de observar as figuras, tocar com os dedos nas folhas, diferentes na maciez do papel, na espessura, no reflexo da cor. Era um prazer escrever uma carta e envelopá-la naqueles modelos de envelopes com a margem em verde e amarelo. Demorava a chegar ao destino, mas eram tempos nos quais o processo parecia ser mais valioso que o resultado. Coisa do século passado, tenho certeza. A modernidade nos traz outros confortos, incontestáveis. Cada época, como cada pessoa, tem seu tempo, sua vez, seu dom, seu talento. Um dos profissionais mais requisitados de hoje é “o cara do computador”. Geralmente infanto-juvenil, ele é amado quando chega logo e resolve a pane da máquina, como se o mundo fosse acabar se este tipo de “urgência” não se resolvesse. Na mesma velocidade de exigência, ele é adjetivado de coisas não tão boas quando demora dois ou três dias para dar assistência. Observe que valores estão em jogo nesta questão.
Não quero avaliar prós e contras, apenas penso alto. E como é humano rir de si mesmo, também assim a realidade se mostra. Divido com o leitor a conclusão, nem quero mais que isso. Pensei no tema desta coluna depois de ver, em uma revista de piadas (Garaio, 2008), uma charge na qual uma criança com expressão de pavor e preocupação escuta sua mãe dizer: “Não meu filho, você não foi baixado pela internet...”.
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