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PENSAMENTEAR
Sixto Carlo Bombardelli
sixtocarlo@terra.com.br
Sem nem lavar
30/04/2010 - Rente à divisa entre os terrenos
da minha casa e do meu
vizinho há uma grande e antiga
bergamoteira. Suas raízes estão
cravadas no solo da parte de lá
do muro, mas os galhos também
sombreiam do lado de cá, próximo
das janelas de meu quarto
. Bem como seus frutos podem
ser vistos de ambos os lados.
Nem bem os frutos estavam
amarelando já caíam sozinhos
dos galhos. Como que em sinal
de desistência de algo. A bergamoteira
chorava bergamotas.
Sobre a calçada, sobre o telhado,
sobre as folhagens. Frutos apodrecidos,
infelizmente. Mofados.
Todos os anos o pé carrega
bastante, as frutas amarelam de
encher os olhos pendendo dos
galhos, mas não chegam a ser
bem aproveitadas.
Em um sábado à tarde vi o
vizinho sobre o zinco do telhado
retirando bergamotas podres da
calha e acabamos por conversar
um pouco sobre a situação:
fartura de frutas, mas sem utilidade
para consumo. Nossa fala
teve um pouco de resignação. “- Sem passar veneno nada
mais dá.” Me disse ele. “_ Meu irmão me indicou
inseticida e fungicida para passar
nos pés de laranja e bergamota
que tenho lá atrás no lote,
mas daí também complica.”
Respondi eu. “- São fede-fede e pulgão
que infestam.” Complementou
o vizinho me alcançando o balde
para eu depositar os frutos
inúteis que caíram na minha
calçada.
“- Com todos os riscos de se
aplicar agrotóxicos , apesar da
vontade de se comer algo sem
veneno, não sei se não é melhor
comprar no mercado as frutas”.
Infelizmente foi-se o tempo
em que se podia comer uma
fruta diretamente do pé sem
receio. Sem nem lavar, era só
mandar ver! Busco na memória
aquelas tardes nas quais usávamos
a dobra da camisa para acomodar
figos, ameixas e pêssegos
para comer com deleite após as
horas brincadas.
Com terrenos urbanos cada
vez menores, os espaços para
pomar e horta se espremem
entre muros altos - e muitas vezes
coroados com cerca elétrica.
Sei que há tecnologia disponível
para a prática orgânica. A
agricultura orgânica enfatiza o
uso de práticas de manejo em
oposição ao uso de elementos
estranhos ao meio rural. Isso
abrange, sempre que possível,
a administração de conhecimentos
agronômicos, biológicos
e até mesmo mecânicos. Mas
exclui a adoção de ubstâncias
químicas ou outros materiais
sintéticos que desempenhem
no solo funções estranhas às desempenhadas
pelo ecossistema.
No entanto, na vidinha caseira
sinto dificuldade para aplicar
tudo na prática. Possivelmente
me falta alcance e admito muita
ignorância neste assunto.
Todos os caminhos evidenciam
que não nos resta lternativa:
precisamos aprender a cultivar
com técnicas sem uso de
agrotóxicos. Pela saúde de nós
mesmos e das futuras gerações.
Vários estudos contemporâneos
relacionam o aumento da incidência
de câncer e depressão ao
consumo de alimentos contaminados
por substâncias químicas
nocivas a nossa genética. Está aí
um argumento imbatível.
Que seja bom
enquanto durar
Hoje é o efeito de ontem e a causa de amanhã.
Phillip Gribble
23/04/2010 - Quente, silenciosa e aconchegante, a vida no útero foi o primeiro e último período de férias legítimas; porque depois que nascemos nunca mais seremos tão bem mimados como na gestação, quando não precisávamos trabalhar, pagar contas, suportar o insuportável ou ver nosso time do coração empatar, por exemplo. Já aqui fora, sem pedirmos, ganhamos uma missão: crescei-vos e multiplicai-vos. Ao abrimos os olhos, os limites nos são colocados, sejam os da espécie, sejam os familiares e sociais. Pode isso, aquilo não. Sob esta perspectiva, a vida se abre e nela criaremos raízes. Sim, crescer e se desenvolver é enterrar raízes na vida, sugar a seiva da cultura. Não ficamos soltos como pardais, nossa sobrevivência inclusive depende de nossas amarras, como inicialmente ao seio materno.
À medida que gastamos a vida, acabamos percebendo que fica difícil enquadrar o futuro sonhado na realidade disponível e que felicidade é uma colagem de momentos. Do passado e do presente, principalmente. Nosso olhar vai ficando mais sensível e honesto com o tempo, fazendo com que cada vez menos coisas sejam necessárias para suprir nossa ansiedade. No bebê não, ele quer porque quer e só silencia quando seu desejo for atendido. Veja que poder! Na adolescência isso ainda existe bastante, mas em menor intensidade. Na vida adulta, não há como fugir, precisamos colecionar recortes de vida e aproveitar muito bem o aqui e o agora. Com bom senso, claro. Sinto-me imensamente feliz quando chego em casa do trabalho e posso sentar com minha esposa e saborear um chimarrão. Delícia de momento. Ou quando estou lendo na cama e minha filha discretamente se enfia sob o edredom e vem ler comigo. Impagável momento que deveria durar para sempre. Quando recebo um agradecimento sincero de alguém que consegui ajudar. Muito bom isso. Ou ainda quando posso sair viajar com a família, sem pressa. Tem também felicidade no retorno dos leitores desta coluna, na descoberta de um novo bom livro, quando chove depois de uma seca, e no... E por aí vai.
Viver esperando, ou seja, no futuro, é ansiedade. Com frustração garantida. É como algumas pessoas dizem: “Quando eu me aposentar vou fazer tudo aquilo que eu quiser.” É um engano, primeiro porque não há garantias de que você esteja lá, segundo que a realidade na aposentadoria não será a mesma de agora. Portanto, não abra mão de aproveitar ao máximo o hoje, por favor. E com os filhos? Deixar tudo só para a herança, que nada. Faça-os felizes agora e não depois que você não estiver mais com eles.
Assim, ficamos prontos para a serenidade da velhice.
Menos pompa. Mais humildade. Menos birra. Mais perdão. Menos máscara. Mais consciência pelos atos. E aquilo que teima em não sair tão certo como o previsto? Pois bem, viver não seria realidade se isto não acontecesse. Seria apenas uma ilusão.
Barba, vazamento
e chimarrão
09/04/2010 - Tem dias e dias. Uns funcionam, outros nem tanto. Ao nosso favor, quero dizer.
Pela manhã, logo ao acordar, já há um engano: pensava ser sábado, mas era só uma segunda-feira babaca. Que susto! Vou para o banho. Depois, ai! Corto-me a face durante o barbear. Começar a semana com um ferimento no rosto é sacanagem. Culpa da pressa e de mim mesmo,ok. Ao correr para um desjejum, penso só nos compromissos da semana. Queimo então a língua com a temperatura do café com leite; o que deu no microondas? Sempre dava certo: era só digitar 90 segundos + potência alta!? Antes de ir para a garagem, lembro que preciso pegar meu aparelho de telefone celular. E onde ele foi se esconder? Até ele quer me atrapalhar, deduzo precipitadamente. Ficar procurando objetos quando se está com pressa nos faz sentir-se algemado ao tempo. Que, aliás, não para. Um tipo de desatenção sem tratamento. Entro no carro e... O portão automático não funciona. Deve ser a pilha do controle remoto que ficou fraca. Vou atrás do controle estepe que deixo sempre dentro da gaveta da escrivaninha da biblioteca para casos assim. Ou seria no chaveiro da cozinha? Abro a gaveta e... Nada!O controle reserva sumiu! Nada de controle e já estou descontrolado porque ser pontual no trabalho é uma obsessão para mim e isso está por um fio. E antes ainda preciso levar minha filha na escola. Tento novamente com o controle que está no carro; agora com sucesso. Ufa! Já estou na rua, finalmente. Em momentos assim, tento buscar uma distração para esperar que o dia melhore. Na boa? Até em Deus penso, mas acho que ele anda meio esquecido de mim.
Ao chegar na unidade de saúde, não há vagas próximas para estacionar. Parece cidade grande. É cedo ainda e organizo o consultório, adianto o que posso antes do turno de consultas iniciar. E... Apaga a luz. Atender em medicina clínica sem luz é mais ou menos como estar em um mundo de faz de conta. Uma dor de garganta sem poder ver lá no fundo da garganta? Inspeção vaginal sem luz? Análise de uma lesão de pele na penumbra? E ainda pode ficar pior: atender um trauma no escuro! Ou ter dor de dente e precisar de um dentista em dia de apagão.
No fim do turno matutino, retorno para casa pela Av. Santa Rosa e, como de costume, a Brigada Militar faz uma operação de vigilância do trânsito. Ressabiado por tudo que passei desde acordar, fico a imaginar se estou com os documentos do veículo onde deveriam estar – dentro da carteira. Bobagem! Eles sempre estão lá.
À tarde, durante os atendimentos, uma ligação interrompe a rotina:
- “Doutor, tem um vazamento na pia da cozinha, o que eu faço?”, informa e pergunta com agonia minha auxiliar doméstica. Ugh! Mais essa. Pelo meu telefone celular tento localizar um encanador que esteja disponível (coisa rara, aliás). Na meia tarde, e com boca seca de tanto falar, meus rins pedem água. Preciso beber algo. Vou à cozinha da unidade de saúde e decido tomar um chimarrão. Jogo rápido. Do corredor ouço então um comentário de um paciente que aguarda para um curativo com a enfermagem:
- “O Dr. fica tomando mate na hora do serviço, vê se pode!”
É, muita gente fala sem pensar por absoluta falta de opção! Até isso. Então não se pode hidratar o corpo durante o serviço? Que diferença faz se é com um copo dágua ou um mate?
- “Pior seria se fosse cachaça!”, respondo rindo e alto pelo corredor.
Em um dia como aquele, optei pelo bom humor.
Ainda bem que amanhã será outro dia, pensei. Talvez melhor, talvez pior; mas não igual.
Ovos moles
01/04/2010 - Nos dias que antecedem o domingo de Páscoa, nossos olhos são convocados a olhar para cima. Lá, onde a imensidão azul é ponteada por tom cinza e branco. O céu. Onde está Deus e de onde ele nos vigia. Na catequese me disseram que precisamos cumprir os dez mandamentos e ter retidão no comportamento porque Deus tudo vê e tudo sabe. Por esse raciocínio, aquele que desdém, na lista negra deve estar. O coelhinho não vai lembrar. Claro que não é bem assim, foi apenas uma figura de linguagem. Foi? No tempo atual seria algo como se estivéssemos dentro de um BBB religioso.
Como dizia, olhamos para cima porque também os ovos de chocolate lá são pendurados. Foi Deus que pediu para que os ovos fossem dispostos acima de nossas cabeças? Estrategista ele, heim! Impossível não ficarmos com cheiro infantil ao cruzarmos o túnel de ovos nos supermercados. Ah, o colorido. Ah, o variedade. Ah, a tentação. Naturalmente que apenas ver não me satisfaz, gosto de pegar. Sentir a face convexa entre meus dedos no formato da mão. Prazer total.
Eis que assim que os primeiros ovos tingiam minha visão meu reflexo foi natural: tocar. Dei-me mal e ainda estraguei o produto. Era um dia quente. Este ano a quaresma está mais precoce e faz calor ainda nestes pagos. Quando mexi, senti meus dedos afundarem em uma massa macia e não resistente ao toque. Eu havia invadido a parte oca sem permissão. Pequei? Rapidamente, como criança marota, retirei a mão e olhei para os lados na busca da certeza de que ninguém percebera minha imprudência. Sondei: eu estava só. Nenhuma testemunha ocular. Imaginei se poderiam ter filmado? Ri só para mim. Ninguém veio me questionar, nem seguido fui. Teria Deus visto? Mas não me senti culpado ao ponto de retirar o ovo em questão do seu lugar “no ninho voador” e colocá-lo dentro do meu carrinho para pagar junto com meus outros itens do dia. Tanto não. Optei por uma saída prepotente: deveriam ter colocado um aviso tipo “Cuidado ao tocar, ovos ainda moles!”.
Saí andando lentamente depressa. Fui para casa com o pão, o queijo parmesão, o pacote de erva, duas pizzas congeladas, uma garrafa de vinho e uma reflexão a mais: minha fé está tão mole quanto aquele ovo que amassei sem querer?
Essa percepção, que elege o simbolismo do ovo como renascimento, que nos faz salivar (e até enjoar) com tanto chocolate em volta e que a cada ano se torna mais comercial, revela as sutilezas da fé. Crer é, então, quebrar os ovos. Também. De nada serve eles lá, escondidos pelo papel laminado e cheios de fitas. Apenas por estar não basta. Eu ando numa fase da vida que quero saber os porquês, caso contrário... Penso que o homem deveria ficar mais distraído do material à medida que envelhece; e só a distração nos conduz ao indispensável.
Vez ou outra é o verbo esquivar
19/03/2010 - Na medida em que os dias passam, uma das dúvidas que me inquieta é se estou no caminho certo. O leitor deve entender o que digo: como há incerteza quanto à outra oportunidade, costumamos nos perguntar se estamos aproveitando esta chance de vida como deveríamos. Em muitos sentidos, atirando para vários lados, do mais íntimo ao mais social. No trabalho e nos relacionamentos. Na ideologia e nas opções. Estamos no caminho certo?
Falar em prazeres apenas não é o caso. É de nos questionarmos se não é chegada a hora de darmos uma guinada em algum aspecto da vidinha. Assim como a realidade dos sentidos, os prazeres são dúbios, voláteis e indecisos. Quem está bem se preocupa em manter o que está e em como evitar uma mudança. Para quem está insatisfeito, a luta parece até maior, mas não é. Fica mais árduo manter que conquistar, acredite.
Quanto mais velhos ficamos, nos parece mais difícil mudar o que gostaríamos. Engano. Os pré-juízos são verdades que a gente carrega e que vão prestar contas com as nossas vivências. Há repercussão, nada fica como está. Eu sou daqueles que defende a idéia de que quando jovens podemos ter maior chance de dar com os burros n’água. Toda fruta é mais saborosa e valorizada quando está madura. Ela é mais docinha e de mais bom gosto. Assim é na teoria, mas na vida a coisa parece teimar. A palavra chave de Pensamentear desta semana é esquiva. Tenho me questionado quanto às esquivas que já fiz e se houve arrependimentos. O que você teria feito diferente na sua vida e não o fez por medo ou insegurança?
Uma das formas de abordar isso é dada pelo filósofo Lúcio Packert, que sugere uma acadêmica maneira de organizar algo complexo. São tópicos para orientar nosso pensamento quanto às interseções mais importantes que modulam nosso comportamento e nossas escolhas. É uma das muitas técnicas usadas em terapia individual ou em grupo. Anote suas respostas, fica mais fácil.
1) Como o mundo parece para você.
2) O que acha de si mesmo.
3) Quando e como sente e expressa as emoções principais: amor, carinho, raiva, tristeza e condescendência.
4) Quais seus pré-juízos. Ou seja, as verdades que a gente tem antes de viver um acontecimento.
A estes itens, eu acrescentaria:
5) Aquilo que faço hoje desejo continuar a fazê-lo daqui a 1, 5 ou 10 anos?
De maneira simples e objetiva, as respostas constituíram um painel inicial de nossos sentimentos, entendimentos, dados éticos, religiosos e o que mais houver. Depois de realizada esta primeira parte inicia os cruzamentos. Por exemplo: o que acha de si mesmo quando está com tristeza? Ou então, Como seus pré-julgamentos afetam amaneira de como as coisas parecem para você ( prazer ou sofrimento)? Em relação ao amor tens algum pré-juízo? As possibilidades são inúmeras. Assim por diante, podes escrever um mapa de seu comportamento atual e então pensares naquilo que precisa ser mudado.
Talvez a gente se de conta de muitas coisas que os outros já viram em nós, mas teimávamos em não admitir. E sempre há tempo para começar tudo novamente se preciso for. Ou vamos continuar nos esquivando?
68
19/02/2010 - Havia dois anos que ela decidiu pela tatuagem. Detalhe importante: depois de sessenta e seis anos de vida. Yes, ela é sessentinha! Radical?! É o que parece à primeira vista, mas a gente precisa relativizar certas visões de mundo para não ficarmos nos sentindo um dinossauro Rex. Deslocar, remover, repensar, transformar aquilo que um dia foi para não ser mais o mesmo na mesmice teimosa da vida da gente é sempre uma cutucada na preguiça do envelhecer. Isso foi o que me coloquei a pensar depois que vi a tatuagem. Nenhuma tatuagem me impressionou e pressionou tanto. Nem aquelas exageradas opções que transfiguram corpos e pele em muro de pichação; muito apresentadas em programas de televisão.
Outro dia à tardinha decidi que tinha o direito de comer uma coisinha boa. Você sabe o que é isso, não fique imaginando que é por lombriga. Então fui à padaria: queria uma torta. Eu adoro tortas. Doce ou salgada de frango. Comprei das duas opções um pedaço. Enquanto esperava que a balconista fizesse a pesagem, ela entrou. Logo a reconheci, até porque já a conheço há anos. Minha família e a dela moravam em esquinas oblíquas, lá nas bandas da Rua Horizontina. Cresci brincando com os filhos dela. Quando se postou ao meu lado em frente ao balcão de pães foi então que não pude deixar de reparar: elegante sob um salto alto, o dorso de seu pé direito ficava alongado e revelava uma tatuagem. Um símbolo muito conhecido.
-“Isso no seu pé é uma tatuagem definitiva? Bonita escolha”, perguntei afirmando.
-“Bonita é a sua camisa, Doutor” Ela disse em resposta. Eu estava vestido com a camisa vermelha do Internacional Sport Clube – o Colorado.
-“É mesmo uma tatuagem?”.
-“Sim, já tenho por dois anos”.Disse ela.
-“Com essa idade que tens, me impressionei. Deves ter mais que 65...”. O leitor talvez estranhe minha petulância, mas já disse que a conheço há anos e tenho certeza que ela me conheceu ainda quando eu usava fraldas e botas ortopédicas.
Na face lateral do pé ela fez uma tatuagem do logotipo do Colorado, bem à vista. Isso que é paixão. Isso que é reviver. Isto que é dizer alto e em bom tom que ama viver e que esta aí aproveitando aquilo eu a vida tem de melhor. E ainda tatuando o símbolo de um time que está na lista dos 10 clubes com mais sócios no mundo.
Não tanto pelo desenho escolhido, não é isso. É pela atitude. Que idoso faria o mesmo? Achei radical, unusual e questionador. Tudo isso mesmo. Já disse que me impressionei. Revelo algo: tinha algum preconceito a respeito de tatuagens. Possivelmente porque elas podem ser tantas coisas bizarras, agressivas, infantilódes e bestiais. Mas, preciso rever isso.
Enquanto muitos nesta idade se escondem em casa ou dentro de roupas escuras e volumosas, esta senhora faz o contrário – sorri pelo corpo, demonstrando autoestima invejável. Ou não?
Tatuar é para decididos; para indecisos pode provocar arrependimento. Precisamos admitir que é um exercício audacioso de liberdade. Vulgar? Deixa disso, pára com isso. Relaxe. Inclusive nisso há opções de escolha e cada um pode mostrar ou não aquilo que é. Feliz daquele que mostra a verdade; não uma aparência conveniente.
Ela tem 68 anos, eu menos da metade disso. Mas a sua coragem parece maior que a minha capacidade de espanto.
Nas mãos da vida
29/01/2010 - A gente nasce nas mãos dos outros. Exatamente. Antigamente, nas mãos de uma parteira em casa mesmo. Nos tempos modernos, o homem chega às mãos de um médico; e, às vezes, já chega no mundo sob a pressão de uma alavanca. Na força do fórceps. Daí em diante segue uma viagem que passa de mão em mão.
Do médico parteiro para as mãos do pediatra. Segue o caminho no manejo da enfermagem até a alta. Em casa, chegam as avós, dindos e tios cheios de mãos também. Só ver não tem graça, todos querem nos pegar; mesmo ainda moles que somos. Até a idade escolar, estamos à disposição das doenças: sapinho, assadura, dor de orelha, cólica abdominal e ansiedade de mãe. Aliás, a ansiedade dos pais mais nos afasta que aproxima do mundo. E, não sendo do mundo, ficaremos na mão de quem?
Na escola, ficamos na mão dos professores; jamais tias. Lá brincamos com arreia, argila e bola. Enfiar a mão no pote de tinta também faz parte. Beliscar o coleguinha... Comer merenda e vomitar na roupa vez ou outra também. Um xixi no calção acompanha.
Quando adolescentes, ficamos na mão dos hormônios. Os bárbaros! Que ficam a conversar ao pé da orelha pedindo a todo instante: “Pega, pega, pega!!!”. “Teime, teime!”. “Aproveite tudo agora, já.”. “Aperte as espinhas, belisque com a unha.” Ou seja, nas mãos da transição pendular que é adolescer; estar dia infantil, dia adulto. Dia triste e emburrado, dia faceiro e afetuoso. É assim, ficamos à disposição da instabilidade.
Pulemos direto para a vida adulta, sem rodeios. É com certeza nesta etapa que podemos atuar mais e ficar menos na mão de outros. Exceto na do urologista para exame de próstata, do ginecologista para exame vaginal e de mamas e do proctologista para eventuais problemas no final do tubo digestivo. E, em todos os casos, ficamos mesmo submetidos à característica anatômica e de sensibilidade dos dedos. Quem já fez toque de reto para exame de próstata ou hemorróidas sabe bem do que estou falando. É a vida! Poucos equipamentos tecnológicos têm a sensibilidade da mão, por isso. E tem ainda a mão que coleta sangue para exames, que mede a pressão arterial, que aplica medicação intramuscular, que faz uma boa massagem, etc.
Saúde de ferro... Quantas pessoas chegam à maturidade sem entrar em contato com as mãos dos médicos e outros profissionais de saúde. Tem aqueles que até se vangloriam de tal proeza. Pois bem, a coisa não é bem assim. Antes tarde que nunca em se tratando de prevenção. É só um dedo, não vai doer e passa rápido. E ainda tem o lubrificante para facilitar, acredite.
Deixei para o fim aquilo que para mim beira a tortura medieval: a cadeira do dentista. Fico indignado que apesar de tanto avanço tecnológico ainda tenhamos que ficar na mão de brocas, ferrão de alicates, pinçadas e agulhadas em uma área tão sensível como a boca. Eu detesto ter que ir ao dentista, apesar de obrigatório. Aliás, o teu dentista também fica te perguntando coisas enquanto você está lá deitado, com a boca imobilizada, cheia de algodão e instrumentos de aço, sem poder dizer nem um ai? Nunca descobri porque eles fazem isso.
Em resumo, não se iluda amigo e amiga: a vida é assim! Vira e mexe, estamos nas mãos de alguém. Precisamos. Mas fazer logo aquilo que precisa ser feito já é uma mão na roda.
As varizes da Tia Gertrudes
22/01/2010 - No verão algo estimula a manifestar-me quanto a minha intolerância ao calor tropical. Nesta temporada quero me usar das varizes da minha falecida Tia Gertrudes; ou simplesmente Trude. Ela é irmã de Nono Júlio e tia de meu pai. Morava em um pátio da quadra que serviu de cenário para os melhores momentos da minha infância. Sombreada por um enorme pé de ameixa amarela, sua casa de madeira não pintada fazia uma divisa entre o terreiro e a horta, onde cresciam bananeiras. Solteira em seu estado civil, acostumou-se com a solidão.
Descendente de italianos, não negava a genética. Tia Trude tinha pernas com calibrosas varizes, como quase todos os membros de sua família. Inclusive eu, que herdei não só o gênio inflamável, mas também este atributo. Ainda criança, eu ficava olhando as tortuosas veias azuladas que desenhavam rotas entre seus dedos e o joelho. Curioso como sempre, certa vez lhe perguntei se não doía; a que ela respondeu: “Quando está quente ou o tempo para chuva.” Retirei o sotaque italiano da resposta, pois não saberia recuperá-lo da memória e traduzi-lo. Que vergonha! Um descendente de gringo que não sabe falar italiano! Calma, vai ficar pior... Entendo mais sentenças da língua alemã que do italiano.
Pois bem: verão e varizes. Uma combinação perfeita! Que nada, um caos. O calor favorece uma maior dilatação das veias periféricas das pernas e isso acentua os sintomas de má circulação. E quase que não está fazendo calor, não é mesmo?! Alguns detalhes técnicos: a palavra variz é do latim varix; que significa serpente. Varizes, ou veias varicosas, são veias dilatadas, alongadas e tortuosas. Além de serem prejudiciais à estética, as varizes podem causar dor, cansaço e sensação de peso. As varizes aparecem mais comumente nas pernas, porém podem ocorrer em outras partes do corpo. Veias são vasos sanguíneos que carregam sangue dos tecidos do corpo ao coração. Elas têm válvulas que ajudam o sangue a fluir. Quando essas válvulas não funcionam corretamente, o fluxo fica lento e o sangue forma poças nas veias. Isso então faz as veias incharem e formar as varizes. Bem simplesinho, é isso. Meu pai operou suas varizes no tempo ainda do quartel em Itaqui e eu estou na fila, teimando. Saudosa figura, a Tia Trude nunca operou as varizes que tanto lhe adereçavam. Morreu com elas, mas não delas.
Por ser uma doença circulatória frequente, o comércio de medicamentos milagrosos para tratar varizes sempre está visível nos meios de comunicação. E com um detalhe: prometem maravilhas. Não caia nessa, consulte um médico para uma avaliação adequada. Uma variz pode passar anos silenciosa, mas o aparecimento de dor, coceira ou escurecimento da pele são um alerta para possíveis complicações, como flebite e trombose, muito temidas nestes casos. E variz tem cura? As condições que lhe causaram muitas vezes não, mas o transtorno sim. Tem escleroterapia, laser e cirurgia.
Eu estou adiando a minha cirurgia há tempo. Mas sei que dessa não vou escapar. E não devo.
Perdas, pesar e dor
15/01/2010 - O passado recente foi tão paradoxal que arranhou o peito. Espinhou a alma. Fez acordar o monstro da indignação que vive e hiberna no reino do imprevisível. Estas palavras não são para doer mais; são para falar. Sim, falando a gente alivia a tensão mental que se não descarregada vai cobrar a conta mais cara ainda mais tarde. Geralmente não escrevo a partir das notícias, mas não pude me abster depois de tudo que presenciamos, de perto e de longe, neste início de 2010. No mundo, no Sudeste, aqui ao lado em Agudo; até mesmo em famílias de Três de Maio. Eventos diferentes, mas todos com perdas. O que os faz provocadores de maior reflexão é o fato de tanto ter ocorrido em um espaço curto de tempo. Tudo ao mesmo tempo agora?
Viver é ter que conviver com perdas. Elas fazem parte da aceitação da existência como algo mais finito e sensível que possamos imaginar. Sabemos de tudo isso; teorias psicológicas, mas dói igualmente. Quando ficamos sabendo de algo ruim na vida de alguém podemos ficar indiferentes ou assumir parte do sofrimento. Pois bem, neste início de ano admito que fiquei cabisbaixo. Porque fiquei pensando no quanto sofrimento foi possível ser gerado nos desabamentos, na vida de famílias sob a água em suas casas, nas famílias que perderam uma de suas estrelas. O tempo passando com fúria e modificando tudo. Planos e destinos. E aquela euforia de viver se apagando aos poucos em quem fica com a dor da saudade. Vamos ficando mais calados, vendo a dor nos deixando mais velhos ainda. Estas palavras me são necessárias, desculpe. Precisamos falar, pois fechar a boca é pior. Porque também a saudade cala e faz doer ainda mais o peito. A palavra não dita é um pensamento mais doído.
Quem perde um dos seus jamais será o mesmo. O mesmo que era ontem, antes de tudo. Daí amanhã será mais diferente que mais um dia no calendário; a mudança é maior que no dia da semana. O que foi ficou. Ficou para trás de nós e no silêncio da dor da saudade fará sempre, e ainda, parte de nosso ontem. Quem fomos.
A recuperação de uma perda significativa leva de alguns meses a anos e, mesmo aí, alguns aspectos podem continuar não muito bem resolvidos. Mas, além da tristeza, as situações dolorosas podem fazer com que descubramos em nós mesmos forças antes desconhecidas, faz com que repensemos nossas vidas e nossos valores, passando a perceber o que realmente é importante e o que é supérfluo, e podem nos transformar em pessoas mais ricas espiritual e emocionalmente. Cada pessoa fará isso do seu jeito e ao seu tempo.
Não há palavras ideais nestas situações, mas preciso deixar ponderações. Quem perde alguém deve falar sobre isso, não se isolar e sim procurar trabalhar os sentimentos de raiva e muitas vezes de culpa. A morte provoca questionamentos que devem ser levantados e discutidos, inclusive se valores precisarem ser mudados. Até com a tristeza precisamos aprender.
Definitivamente, alguns propósitos não se podem entender. É como disse o poeta Fernando Pessoa: “Diante de determinados fatos, o coração, se pudesse pensar, pararia”.
Acordar em Dia de Natal
24/12/2009 - Eu sou cristão. Tenho uma Bíblia, um terço que era da Nona, um lugar em minha casa no qual reúno símbolos cristãos e especialmente onde faço orações. Cada um de nós tem uma visão da vida e há uma necessidade constante de se orientar nela. Não precisamos apenas de água e pão, calor, relacionamentos e compreensão dos outros aos nossos desejos; precisamos igualmente descobrir por que estamos aqui. E nesta questão, uma criança de cinco anos pode ficar com as mesmas dúvidas que um idoso de 70. As mesmas perguntas, os mesmos enigmas, as mesmas indagações. É aí que entra uma questão ímpar: a fé. Fé e religião são gêmeas, não siamesas. Na religião há uma vivência ritual da relação entre o homem e um poder sobre-humano no que ele acredita. Essa relação pode se expressar de muitas maneiras e culturas: confiança, radicalismos, crenças, culto e ética. Quem tem fé crê em “algo mais” além daquilo que nossos olhos vêem e pode não se encaixar em uma religião. Um rápido olhar para o mundo ao redor nos mostra que a religião desempenha um papel bastante significativo na vida social de todas as partes do globo. O que não quer dizer que todos acreditam em alguma religião. Ter uma filosofia de vida, por exemplo, nem sempre é sinônimo de pertencer a uma religião.
Mas isso não é o que passa pela cabeça quando a gente era uma criança. Lembro claramente do pinheiro decorado com bolas metálicas. Cada ano era lindo colocar o pinheiro dentro de uma lata com tijolo e areia. Depois vinham os adereços: bolas multicoloridas e correntes brilhantes. Naquele tempo não tinha pisca-pisca. Lembro ainda do valoroso presépio do qual sempre me chamava atenção um grande anjo azul celeste que minha mãe prendia no tronco do pinheiro junto à lata. Sim, Jesus de Nazaré iria nascer. Bonito sempre foi, mas eu estava interessado mesmo era no futuro breve: a chegada do Papai Noel. Porque então algo material iria estar em minhas mãos, algo palpável que sempre traduziu a razão de ser da festa. Criança é curiosa, mas é mais possessiva. Ela quer ter. Para si. Com o tempo (Ah! O tempo...) a simbologia muda (Na sua família também há uma combinação do tipo: neste ano presentes só para as crianças?) e um ponto de culpa vai crescendo. Talvez isso explique porque tanta gente vai mais à missa nesta época do ano. Eu também sou assim. Sempre há tempo para diminuir a distância entre Deus e nós. Pelo menos aprendi isso na catequese; que Deus sempre perdoa.
Vivemos uma época na qual o chorar é feito à medida do lenço. E nesta época a fé me parece ser um dos poucos caminhos que é universal a todos. Na noite de Natal, cada casa terá seu cheiro, sua geladeira, suas risadas e seus presentes. Estas diferenças desafiam governos e indicadores econômicos em todos os lugares do planeta. Mas a fé está acima de tudo. Pelo menos se imagina que sim.
Acordar em Dia de Natal é sentir a ressaca da noite de festa. Ou da noite não dormida na ansiedade da chegada de Noel. “Tudo bem: já rezamos, comemos, reunimos a família... E os presentes?”. Talvez seja isso que se passa na mente das crianças. Então, como não nos será permitida outra chance de vida (pelo menos em tese), abracemos o prazer que o Natal proporciona.
Mas não percamos de vista as indagações quanto ao seu significado, para tudo não acabar do mesmo modo que as caixas que continham os presentes.
Amém.
19/12/2009 - O toblerone - A inspiração é uma revolta.Não lembro onde li esta afirmação; muito correta por sinal. Do mais metódico ao mais maluco, do mais organizado ao mais perdido, do mais macho à mais fêmea; todos são desacomodados quando um sinal elétrico cerebral encontra o local certo para sua interpretação e isso passa ao nível da consciência. Bingo, uma ideia!Uma boa ideia de preferência.
A Humanidade sempre dependeu de iniciativas e reviravoltas; do contrário muito do nosso conforto atual não existiria.Ou alguém ousa em pensar nas vantagens em tomar banho na bacia com água esquentada no fogão à lenha? Imagino que não. Ou quem sabe... Hum! Viver sem geladeira? Sempre agradeço por não ter sido jogado na Terra pela cegonha há décadas atrás. Foi muito difícil para nossos antepassados; verdadeiros heróis da resistência. Com perda de memória, caímos em pecado e somos mal agradecidos por tudo que temos. Sempre parece nos faltar algo, já percebestes? Isso não é errado, afinal sempre faltará de fato. A distorção é sofrer por isso.
Todas as inspirações que obtiveram desfechos, provocaram revoltas. A mulher. A maçã. O fogo. A roda. A energia elétrica. O livro e a literatura. O computador e a Internet.. O chocolate e sua lapidação:o toblerone ( Ah! Um toblerone...) O automóvel. O amor... Claro, o amor! Mais que inspiração, é um pré-requisito talvez para o bem-estar que favorece uma mente ficar saudável para então imaginar.
Numa de suas sacadas geniais, Woody Allen diz em seu filme “Melinda e Melinda” que o amor é o único tipo de alimento que nunca é demais ingerir; a exceção. E quem vai contestar, quem? Mas o autoamor é demais! Beira a idolatria. Mas, misturando sexo a coisa fica interessante... É de Allen também uma máxima que sempre recordo e que cutuca esta questão: “Não despreze a masturbação - é fazer sexo com a pessoa que você mais ama.” Frase inspirada.
Não há dúvida de que o bom humor é outra grande fonte de inspiração. Com a testa franzida e amargo na boca e no olhar, há revolta; inspiração não.
Inúmeras vezes ouvi alguém me aconselhar: “Fica na tua, será melhor assim.”. Inquieto por natureza, obsessivo como defeito e organizado na vida e na profissão, não sei ficar só na minha. Isso já me colocou em enrascadas; algumas se revelaram produtivas porque me fizeram refletir ao contrário. Opino, digo, elogio tanto quanto aponto defeitos. Na boa.
A inspiração transforma uma vida e o destino de uma sociedade. Nos resta decidir sua rota. O processo de inspiração não é apenas um modo individual de produção da criatividade, pode ser um processo coletivo. Portanto, poderíamos dizer:
“Me diga com quem te inspiras que te direis quem és.”
Pensar diferente,como via para o crescimento.
Pensar o impossível, contra a rotina.
Ser livre, para oxigenar a alma.
Escolha.
Inspire-se mais e melhor no ano que está em gestação.
Quando nos convocam a pensar
12/12/2009 - A pensar em que, mesmo? Vamos deixar um pouco nosso egoísmo de lado e pensemos em algo que não seja em nós mesmos. Está ficando um tanto enfadonho ler, ouvir e assistir por todos os cantos opiniões, insinuações e avaliações sobre algo pouco útil. Às vezes temos este direito, afinal humano nascemos. Mas se isso for repetido, revela uma evidente distorção social. Um exemplo: o que nos importa saber se a Senhora Obama depila sua axila ou qual o nome de sua cachorra? Vamos produzir algo mais útil à frente. Adiante.
Portanto. Enfim. Nosso “aparelho de pensar” nos permite perceber, distinguir, sentir, organizar e operar na realidade. É a vida que nos contamina e justifica a cada passo. Isso é bom, mas pode nos provocar tropeço. Somos muito criativos e alguns mais que os outros. A produção mental aplicada na vida, com ou sem afeto, é o que nos constitui. Pensar é básico para, logo, existirmos. Como disse o filósofo; ainda continua valendo.
O que pensam aqueles que ficam rabugentos e tristes a cada dezembro com a justificativa de que a maioria dos mortais apenas estão embebidos pelo consumismo de Natal? Sensatez ou equívoco? Este clima de luz, felicidade, solidariedade em ações sociais, comércio investindo... É fantástico. Além da religiosidade, que é cenário. Ou tem alguém aí do outro lado que não gosta de ganhar um presentinho surpresa?
O que pensam a cada dia os que guardam mágoas e rancores? Isso não faz bem para ninguém e, também, provoca insônia, dor de estômago e pode aumentar a pressão. Só como exemplo. Eu já fui um pouco assim, hoje estou mais leve. Tente filtrar suas opiniões sobre as pessoas. Evite excluir alguém.
O mundo é de fato grande e estranho, o homem é um ser diverso e surpreendente, mas uma coisa além da morte é absolutamente certa: todos querem ser feliz. Mesmo aqueles que nisso não falam. Não digo sempre, obstinadamente, mas uma vez ou outra. Penso que ser feliz é ter tempo para disso lembrar e cabeça para colocar a felicidade como uma prioridade. Não uma meta, mas uma escolha diária. Muita gente empurra a felicidade para mais tarde. Para quando? É lugar comum pensar sobre isso, mas a vida anda complexa demais para esquecermos o básico.
Sempre que penduro um enfeite na porta da frente de casa, na véspera de Natal, um pensamento me domina: modismo sazonal ou vivência da espiritualidade?
Qual seria o pensamento mais reto de quem é agnóstico ou não é cristão neste período perto do Natal? Qualquer que seja o expediente, entretanto, todos balançam em suas crenças nesta época. Acho que sim.
Aliás, é mais feliz quem se preocupa com a felicidade dos outros?
Sim, pensar traz mais dúvidas que respostas. É assim camarada, paciência. Só precisamos nos cuidar para não tropeçarmos em nossos próprios pensamentos.
Neste dezembro, se cada um estender a mão para uma pessoa ou uma família nesta situação, tudo será muito melhor para todos. Se prepare, então.
Sem preconceito. Com tolerância. Sem radicalismos. Com fé constante. São pensamentos úteis. Já é possível sentir o cheirinho de fim de ano.
Ou você está pulando etapas e está mais de olho nas férias de verão em 2010?
NOSSAS VIRGINDADES
05/12/2009 - Nascemos virgens, em quase tudo. A primeira virgindade rompida é a da angústia do nascimento.
A virgindade, em sentido figurativo, é referente à pureza, candura e também castidade. Em outras palavras, um estado daquilo que se encontra intacto ou ainda não experimentado. Chegamos sem experiência em várias áreas, inclusive na sexual. Nossas virgindades até podem atuar como fronteiras ou trincheiras, nos escondendo da verdade ou protegendo de ameaças. Ninguém esquece o dia em que deixou de ser virgem sexualmente, mas não é esse banal e surrado caminho que pretendo percorrer. Vamos pensar nas janelas da vida que nunca são abertas, nos baús raramente remexidos e naqueles cantos esquecidos.
Busque uma caneta e uma folha de papel, serão necessários para um rápido exercício. Espero...Pronto? Escreva agora uma lista de coisas que você jamais pensa em vivenciar, jamais fazer ou nunca correr atrás. Partes da vida e lugares que não passam nem perto de suas intenções mundanas, por serem utopias ou porque não combinam com teu jeito de ser. Vai lá, escreva. Espero mais um pouco.
Há mais vida ao nosso redor que imaginamos conscientemente. Um mundo que não nos pertence porque o desconhecemos, simplesmente isso.Precisamos olhar além de nossos sentimentos e significados de todos os dias. Precisamos? Como assim, generalizar? Fica a critério de cada um, mas uma pitada de tal petulância nos é necessária a fim de encontrar os pressupostos escondidos que estruturam nossas vidas.
Somos colecionadores de virgindades e nossos causos são constantemente enriquecidos pelo orgulho, mais que pela vivência. Há de se perguntar também: aquilo que contamos a nós mesmos sobre o nosso contexto é razoável? Gargalhar e inventar é fácil, emendar mais ainda. Caçoar e subentender então, muito. Deduzir sem ter visto, dizer sem ter certeza, achar sem procurar... São todas virgindades de nossas ignorantes manias de cada dia. Uma vez questionados, possibilita-se um novo jeito de viver.
Você certamente conhece alguém que demonstra saber de tudo um pouco. Julga, se diz analista, conhecedor... E ainda costuma se camuflar atrás de uma posição social. Porém, é mais gratificante conviver com gente sincera. Pessoas que até podem ser arrogantes vez ou outra, mas sabem o que são. E bancam os custos disso.
O que nos capacita a viver como agentes, sedimentados na verdade, são nossas virgindades rompidas.Muito do mundo aparente surge daquilo que se ouviu dizer, de um pouco do que se imagina, sem que nossos sentidos cristalizem como verdade. E os resultados? Pergunte aos psicólogos. Eles possivelmente falarão em neuroses, ansiedade, paranóia, baixa autoestima, transtornos e por aí vai.O antídoto é viver intensamente, seja uma religião ou um talento, sem se preocupar com aquilo que os outros falam, fazem ou pensam.Isso gera verdades e quebra falsas impressões de mundo.
Experimentar é diferente de conhecer.
A vida precisa ser degustada. Basta.
UM BRUTO
28/11/2009 - É o humano um ser brusco em seu estado natural ?
O estado de humor pode esconder o quanto somos humanos?
Não me refiro à bestialidade de alguns, como em casos de violência gratuita e injustificada maquinada por mentes perversas. Besta é outro estado. Estou aqui pensando na humanização em nossos relacionamentos, principalmente devido ao fato de haver evidências de tensão entre a frieza da racionalidade burocrática com a preocupação em organizar-se um mundo para a humanidade.
Estive, há algumas semanas, em Santa Rosa como palestrante convidado na Conferência Municipal de Saúde daquele município. Uma conferência de saúde é a instância máxima de avaliação do sistema e um momento para reflexão e decisão com olhos para o futuro. Fui falar sobre Humanização e Vínculo em Saúde, um tema pertinente e que consta na agenda de gestores, usuários e trabalhadores de saúde. O SUS tem desde 2004 uma política nacional de humanização específica, preocupada com o jeito de fazer saúde. Vou aproveitar e dividir alguns pontos com os leitores.
Nascemos carentes. O homem é um animal incapaz de sobreviver apenas por instinto. Ao nascer, precisamos de alguém que nos cuide e por isso, naturalmente, desenvolvemos em nós a expectativa constante de que sempre receberemos atenção, cuidado e afeto cada vez que tivermos uma nova necessidade. Quem está doente, ou pensa estar, tem uma necessidade. Portanto, espera por alguém. Alguém que lhe entenda e responda a suas expectativas.
A relação entre aquilo que as pessoas esperam e o que os serviços de saúde podem oferecer tem dado o que falar. Porque duas cabeças pensam diferente e, nem sempre, na mesma direção. Por exemplo: eu posso achar que tenho algo e que preciso de determinada coisa, mas quem me atende pode não pensar assim. Em saúde, cabe à equipe e a cada profissional aproximar isso e acolher da melhor maneira possível seus usuários. Uma ação humanizada é aquela que considera a pessoa como um sujeito, que tem sua história de vida, uma cultura e um estado emocional por trás de seu número de convênio ou prontuário. Em saúde, a humanização tão esperada é um compromisso com a relação de valores relacionados ao vínculo, confiança e grau de felicidade humana. Para que isso ocorra, precisa haver uma troca na qual quem atende se coloca no lugar de quem é atendido e vice-versa; para poder haver compreensão da situação, suas possibilidades e limitações também.
Há o risco da humanização ficar em segundo plano. É uma visão reduzida buscar culpados, até porque o que ocorre dentro das unidades de saúde é um reflexo da sociedade e da vida como ela é. Muitas tarefas, desvios no modelo de atenção, condições nem sempre ideais e uma crescente exigência do público tem preocupado muita gente. Aqui está a grande questão: o SUS sempre está aberto para ser analisado. As boas experiências estão em toda parte, mas nem sempre divulgadas. Ocorre muita coisa boa que ninguém imagina.
Também há de se destacar que o usuário não pode tudo. É preciso conhecer as reais condições de atendimento e buscar conjuntamente melhorá-las.
Afinal, o agir humanizado não é uma atitude unilateral. Alguns acham equivocadamente que serviços e profissionais de saúde pública existem para serem consumidos e não entendem seu valor de uso. Eu, que não nasci antes do pecado original, também cometo meus deslizes. Tento me vigiar a cada dia. Trabalhar com gente pede afeto e muita paciência.
De fato, este assunto nos convoca.
MAIS UM COPO, POR FAVOR
21/11/2009 - Como amamos a democracia, precisamos suportar suas circunstâncias. Vivemos um tempo de liberdade, no qual o universo íntimo parece estar cada vez mais diminuído enquanto a vida pública é ampliada. Repare, cada vez mais sabemos, ou imaginamos que sabemos, sobre a vida dos outros. Sobre os gostos dos outros. Também a respeito das escolhas dos outros; principalmente as amorosas. Correm à boca pequena, com uma dilacerante animosidade, as fofocas que disputam qual é mais inédita. Isso me provoca urticária; não aprecio tal prática mesmo que muitas vezes elas passem pela tangente nos ambientes em que estou.
Certa vez me perguntaram se de fato eu era para ter sido um padre; não um médico. Não imaginei a importância que isso devia ter na vida de quem estava sedento por este esclarecimento. Sim, eu quase fui um seminarista, Ufa! Escapei. Com todo respeito. Ainda no 1º grau fui convocado, quase empurrado, para uma via de rezas, legiões, encontros e equipe pastoral. Algo um pouco além do habitual. Eu nem tinha percebido, mas havia uma intenção em andamento. Poder escolher é uma das prerrogativas democráticas.
Não sei onde foi que eu li a frase “Quem não gosta de chocolate, bom da cabeça não é.” Concordei, na primeira olhada. As generalizações são quase uma unanimidade social, mesmo que paradoxal em um estado democrático. Eu gosto de chocolate; até demais. Mas não gosto de cerveja.
Um colega meu de faculdade chamado Natalício, que agora é um médico hematologista em Novo Hamburgo, sempre me provocava devido a esta opção. Nas festas da faculdade lá estava eu só no refri. Não pelo conteúdo alcoólico, mas pelo sabor. Meu paladar rejeita o amargo da cevada. E não há marca que me mude esta situação gustativa. Minhas papilas linguais são teimosas. O Natalício vivia dizendo que o dia em que o Sixto começasse a beber cerveja iria recuperar o tempo perdido e tudo seria diferente; para pior. Ríamos todos. Contudo, isto sempre me instigou. Não sei se o receio de isto acontecer um dia (eheheh...) ajudou, mas continuo a detestar cerveja. Não devo ser bom da cabeça. Sei que sou minoria.
Fico observando como o copo é um objeto de primeira grandeza para os amantes da cerveja. Em uma roda de amigos, em casa ou em uma festa, quando chega a primeira garrafa na mesa ou as latinhas são pulverizadas, geralmente há alguém que faz alguma observação sobre o copo disponível. E sempre precisa de mais copo. Os copos de plástico, apesar de versáteis, são muito rejeitados. As canecas ganham longe. E a conversa corre solta e aumenta sua velocidade e conteúdo na medida em que as garrafas vão se empilhando sobre a mesinha.
Cada fim de ano se reúne, em uma sexta à noite na minha casa, os colegas da equipe de saúde da família na qual trabalho. Uma turma muito animada e gente fina; amantes inveterados de cerveja. Eles na ceva, eu na coca. A turma às gargalhadas; eu na moderação do humor. Uma das agentes de saúde sempre diz: “Tu não existes cara!”. Então tá, quando eu nascer me avisem, por favor.
Cada vez mais tenho a certeza que gosto se discute. Se o mundo de hoje é “uma viagem”, não é preciso etanol no sangue como bilhete de passagem. É, lá no fundo deve haver um pouquinho daquilo que eu quase me tornei.
CHEIRO DE...
14/11/2009 - Porão. Algo escuro, curtido, úmido e com alto teor de frescor. Uma inspirada mais profunda e atenta e dá para sentir o aroma de pipas envelhecidas de vinho, de uma grande mesa de marcenaria, de maços de chá de macela pendurados nos pregos das vigas e...Não tem como deixar passar o cheiro de salame pendurado em uma taquara presa nas pontas com arame ao teto. Cestos de vime. Tachos de cobre. Barras de sabão em fila. Prensas de torresmo. O teto, aliás, é o piso do andar de cima. Silêncio e paciência, vamos aproveitar. Curtir. Estamos agora em um cômodo que não é mais comum existir nas residências modernas. Mais compactas em espaços não menos diferentes, as moradias de hoje não permitem tamanho luxo: um porão.
O órgão do sentido mais fantástico dentro de um porão é o olfato. Os cheiros de porão jamais te serão infiéis, acredite.
Se você é um leitor jovem, possivelmente sua memória não encontrará eco ao ler esta coluna. No entanto, se és um adulto jovem ou um garboso coroa, certamente já estás orgulhoso das histórias vividas que passam por um porão em algum lugar do passado.
Originalmente concebido como local privilegiado para depósito, sempre com pouca ventilação e iluminação natural, sua porta exige que nos abaixemos para por ela cruzarmos. Caso contrário, nosso crânio também terá outra história para contar. Se tiver janela, será baixa, pequena, quase um portal para um mundo à parte. O de fora. Paradoxalmente, um porão otimiza para uso uma parte da casa que só ocorre em moradias grandes ou naquelas construídas sobre terrenos inclinados.
Por ser sinônimo de ambiente escondido e escondedor também, um porão nomeia tantas outras possibilidades. Já vi boate como nome de Porão, banda musical de rock, bar, grupo de teatro e até pizzaria. Todos tentando utilizar o marketing que a envolvente designação traz. É, porão tem muito a dizer. Um substantivo e tanto.
Um porão lembra...
Meu Nono Júlio. Grande figura. Como pessoa e cidadão. Ele se refugiava no porão da antiga casa de madeira da família. Quando queria, era para lá que ia se esconder do mundo e das implicações da vida. Entre vidros de compotas, formas grandes de cuca e garrafões de vinho tinto, todos os problemas pareciam se dissolver. Muitas vezes brinquei naquele porão. Felizmente. Muito melhor e mais saudável para uma criança que as atrações digitais modernas.
Há porões que ganham, por força de circunstância, status de lar. Algumas famílias não têm outra opção e precisam criar seus filhos junto à poeira e o excesso de umidade existente abaixo do chão de uma casa.
E mais. Um porão é ainda um excelente local para uma aula de ciências. Nele poderemos ver teias de aranha magníficas. Ratos e camundongos. Baratas e mais baratas. Elas também gostam do ambiente e dos jornais velhos lá depositados.
E para namorar escondido e sonhar em dar um beijinho inocente na filha sardenta da vizinha quando ainda éramos pré-adolescentes? Melhor local impossível. Porão também é todo sentimento e poesia. Guarda em seus recantos ressentimentos, carícias e ternuras sonhadas. Menos reais e mais imaginadas. Mais inventadas que vividas de fato. Como é, de fato, o universo infanto-juvenil.
Em que local estão os porões atualmente?
Lá onde vivem os bodoques, os carrinhos de lomba e o futebol com caroço de abacate.
Eier schmier
07/11/2009 - Um dia desses vou escrever sobre o que sente um médico diante da morte. Agora a história é outra: minha mãe sempre dizia que não era para comer o pão ainda quente, saído pouco antes do forno. Ainda assim, rondávamos a cozinha imantados pelo aroma e pela possibilidade de saborear uma bela fatia, tenra e quentinha, que derretia na boca enquanto nossas narinas confirmavam o prazer em tal experiência. Nem o costumeiro alerta mudava nossos planos: “Guri, espera esfriar para não dar dor na barriga!”. Mas e a maciez, o sabor, o gosto aveludado na língua? Deixar para depois e perder a chance? Se fosse condição, que viesse então a tal cólica, porque o benefício era bem maior que o risco. Que seria de nós, pobres mortais, sem arriscar?
Arriscar para petiscar, eis uma dimensão da motivação emocional.Contra o viver cinza, precisamos sempre perseguir o livre pensar, o arriscar além do conhecido e da rotina. São os primeiros passos para a descoberta do mundo, em uma eterna experimentação do desconhecido.Se for proibido então, parece melhor.
Mas e o pão?
Conheço pessoas que podem ficar um dia sem beber água, mas não sem comer pão. Poucos alimentos nos são tão fraternos como a massa assada de trigo, milho ou mandioca. Variações sobre o mesmo tema. Para mim, quanto mais pesado, melhor. Não aprecio pães sovados, leves, branquinhos... Tem ainda algumas receitas de cacetinho (pão francês) vendidos por aí que em nada se diferenciam de uma folha de papel amassado. Basta morder para nada sentir. Esfarelam mais que paçoquinha. E como tem gente que gosta! Eu já sou mais rude no paladar, pão para mim tem que ter peso. Quando se corta uma fatia, ela deve fazer barulho ao cair de lado sobre o prato. Um bom pão italiano, de verdade, é assim. A massa é deixada para fermentar alguns dias; o que lhe traz maior consistência sem perder em crescimento e sabor. Pão bom, mesmo, é aquele que a gente come sem precisar de nada sobre ele. Só. Como foi feito.
Penitencie-se, porque vamos salivar: o que você mais gosta de passar no pão? Nata, manteiga, melado, ricota, maionese, banha com alho (Ugh! Essa não, mas tem gente mais velha que gosta), geleia de uva, mel, patê... Quando eu era ainda um pacato namorado de minha atual esposa, obviamente precisei passar pelo desafio de ir a primeira vez na casa dos sogros. Em um final de semana apelaram, pegaram no meu ponto fraco: os olhos e a gula. Foi então que comi, pela primeira vez, “eier schmier”; uma mistura de banha, ovos e açúcar mexidos em uma frigideira e depois esparramados sobre uma grossa fatia de pão. Olhei, desconfiado para aquilo que para mim parecia um ponto desconhecido entre uma omelete e um creme com canela que minha mãe fazia. Maravilhoso! Um prato tipicamente alemão, daqueles que passam através de gerações. Tão bom quanto seu potencial calórico. Era comer e sentir saciedade por horas. E o colesterol? Não estraga o clima, o assunto não é esse. Tentei repetir a receita algumas vezes em meus tempos de estudante, mas sem sucesso. Nisso minha sogra é imbatível.
O pão é um símbolo de transformação, da vida e de suas potencialidades. É bem mais que alimento, convenhamos. Penso que todos deveriam saber fazer alguma receita de algum tipo de pão. Uma vez ou outra comer o pão que a gente mesmo fez é familiar, reconfortante, calmante e, desconfio, anti-depressivo também.
Mutley, faça alguma coisa!
22/08/2009 - Enquanto isso, seu dono vilão esbraveja indignado porque seus planos, novamente, foram pelo ralo. Criado por Hanna Barbera, Mutley é um cachorro com uma risada sinistra e que vive salvando Dick Vigarista em troca de uma medalha.
Sua frase é: “Medalha, medalha, medalha.” Ele não pede muito, pois se contenta com uma recompensa simbólica. Seu diferencial está na incansável disposição em resgatar seu provedor dos mais variados apuros. Em sua maioria, de situações politicamente incorretas e moralmente não recomendáveis. Mutley, portanto, é imoral porque apoia um imoral e nada faz para isso mudar.
Sou daqueles tempos de colégio nos quais tínhamos no currículo a disciplina de Educação Moral e Cívica, com pompa e circunstância. Em um nítido vento dos tempos da ditadura, aprendíamos isoladamente o que são virtudes, papéis dos poderes institucionais, hierarquia, civismo e mais um pouco. Entretanto, tínhamos que reafirmar o certo. Minha professora desta matéria ainda vive e guardo boas recordações de tudo. Virtudes! Tema clássico da moralidade e também o oposto dos vícios. Acorde. Não se mexa, escute! Seja bom. Não tenha medo. Homem não chora. Respeite os mais velhos. Acabe a lição antes de brincar. Como se vê, virtudes como honra, coragem, bondade, confiança e responsabilade eram apresentadas como qualidades necessárias a alguém digno desse nome. Quanto aos vícios, eles eram evidentemente ensinados como aspectos pessoais contrários às virtudes. Quanto mais virtudes, menos serão os vícios.
Creio que, na sociedade em geral, falamos mais dos vícios que das virtudes. Permanecemos falando em alcoolismo, consumo de drogas, violência, indisciplina, falta de limites, etc. Mas quando se fala em virtudes, tudo acaba restrito à justiça. Ou seja, enquanto, no passado, a lista dos objetivos morais e cívicos era maior que a dos problemas a serem superados, hoje acorre o contrário: fala-se mais em mazelas do convívio humano do que em qualidades que deveriam guiá-los.
Uma situação comum: as conversas corriqueiras, sobre tudo e todos. Quando falamos de alguém, para qual dimensão olhamos primeiro? Outra cena diária: a relação entre meios de comunicação e a realidade. Tem muita coisa dando certo pelos quatro cantos, mas nos parece que só o que está em desagrado é notícia. Ou quando um interesse individual pode estar por trás.
Em uma pesquisa realizada por La Taille, Menin & cols (2008), foi elaborada uma lista de 10 virtudes, das mais às menos importantes para os entrevistados. No topo, a justiça, a gratidão, fidelidade, generosidade e tolerância. Depois, honra, coragem, polidez, prudência e humildade.
O fato de a justiça ser a primeira colocada não surpreende. Estamos cansados de impunidade, seja onde for que ela aconteça. Em um mundo em que tudo é moldável como a argila, falta solidez. Falta palavra. Falta vergonha na cara. Quando me vejo diante de mais um escândalo político, imagino alguém só gritando: “Mutley, faça alguma coisa!”. Por muito menos do que acontece nos dias de hoje já fomos à guerra no passado.
Não é nada recomendável apelar para alguém fazer alguma coisa por nós. Cada vez mais precisamos admitir aquilo que pode deteriorar nossa vida. Então, basta.
É como uma parada cardíaca, é melhor prevenir que reanimar.
Frio, tosse e televisão
01/08/2009 - Ultimamente estou mais emotivo que o habitual. Eu não era assim. Minha concha está menos dura. Se for ou não um sinal da quarta década de vida ainda desconheço. Um tipo de programa de TV tem chamado minha atenção: aqueles que transformam a vida das pessoas em momentos mágicos dando casa nova, carro novo ou remodelado, reformas na aparência física e no guarda roupa e, também, por consequência, na autoestima.
Um carrancudo de plantão dirá que é asneira usar as fragilidades de nossa gente para alavancar a audiência e que esta modalidade de cultura televisiva é totalmente questionável, etc e tal. Pois bem, dane-se. Alguém gostaria de estar no lugar dos beneficiados? Não é por isso que abordo a questão, mas pelo simples fato dos participantes não terem outra possibilidade de alcançarem tão rapidamente aquilo que ganham nos programas. São mulheres que batalham muito para pagar aluguel e manter a família, aposentados com um carro velho de estimação, mas que é o próprio meio de melhorar sua mísera aposentadoria oficial. Famílias inteiras morando em condições nada humanas. Gente que sonha com coisas básicas como um fogão e geladeira ... Este filão foi descoberto pelas emissoras e quase todas têm algum programa a respeito.
No sábado passado, com aquele frio impressionante, depois de conferir a poda das videiras e retirar ervas daninhas dos canteiros, passei a tarde ao lado do fogão à lenha comendo canjica quente com canela e de olho na tosse e na febre do meu filho, com uma infecção respiratória. Foi então que assisti ao caso de um rapaz baiano que desafiou sua memória musical para alcançar um prêmio em dinheiro que jamais conseguiria sozinho para melhorar a qualidade de vida de sua família. Com renda mensal de R$ 450,00 com a venda informal de bijuterias, sua vida estava em marcha lenta. Vencedor, chorou ao lado da namorada.Nosso povo é bravio, “pega no tranco”, vai de qualquer jeito, pois nem todos alcançam as oportunidades que deveriam ter. O rapaz até podia ser um preguiçoso e pouco disposto ao trabalho, mas isso pouco importa, afinal! Todos merecemos! Todos, basta uma mão sincera e limpa ao alcance.
Depois foi a vez de uma parte do programa que transformou um Chevette velho e em situação inadequada para as ruas em uma ferramenta de trabalho para um pernambucano. O participante é trabalhador, serralheiro a domicílio e emocionou-se, em sua simplicidade, com a oportunidade. Também a mesma história, a mesma chance, a mesma glória. Lágrimas. Lembrei que na noite anterior vi, com aperto no peito, um menino sem roupa de inverno para vestir dizendo estar com frio diante da câmara de tv em um telejornal estadual. Uns com pouca chance, outros só de vez em quando. Outros empregando a família inteira em cargos públicos em Brasília. Lambança e nepotismo.Ou seria feudalismo?Quanta injustiça!
Para terminar a tarde, revi o filme Mudança de Hábito II, que já não era novidade. Quantos jovens estão na escola, portanto com oportunidade, e desistem ou acham tudo difícil? Muitos não valorizam como deveriam. O filme discute isso. Mas assisti com outros olhos: da responsabilidade que nossa sociedade tem em favorecer o bem, a chance, a oportunidade, a motivação e o conforto para todos que nela vivem e dela precisam. E isso com as mãos limpas!
Chegou o entardecer e o frio aumentou. Menos mau para quem tem cobertor.
Quem a gente conhece (Parte II)
25/07/2009 - O fundador da Sociologia, Durkeim, em 1897 escreveu um clássico da literatura sobre o suicídio, afirmando que as causas do autoextermínio têm fundamento mais social que individual. Atualmente isso é uma meia verdade. Hoje dou seguimento à coluna que escrevi sobre o suicídio semanas atrás.
O suicídio é uma espécie de greve. Greve de existir que o sujeito assume em caráter irrevogável. Mas será que existem sinais de aviso? A resposta é sim e não. As estatísticas mostram que 80% das mortes por suicídio foram precedidas de alguma pista ou sinal. Contudo, muitos deles estão tão codificados ou imperceptíveis que mesmo um profissional pode não os perceber.
Quem tira a própria vida está fora de si, sempre? Não necessariamente. Embora muitos pacientes sejam rotulados como “loucos” por tirarem a própria vida, pesquisadores acreditam que as vítimas de suicídio não procurariam tanto a morte, e sim um meio de fugir ao sofrimento. Os suicidas, assim, sentir-se-iam perdidos pelas circunstâncias da vida e encontrariam na morte o único meio de fuga. No entanto, mesmo na morte, eles desejariam que alguém os resgatasse da situação. Por isso, assumir que o suicídio é um ato de insanidade não apenas pode ser falso, como constitui uma indelicadeza para com os parentes.
Em relação à prevenção, é importante conhecermos os traços psicológicos que podem agir como coadjuvantes: a impulsividade, pois os impulsivos podem achar que o suicídio termina com o sofrimento sem antes avaliar as consequências disso. A insegurança afetiva, pois pessoas que são dependentes de outros para a manutenção da autoestima, sentem-se facilmente frustrados e são considerados de risco. Pessoas com expectativas irrealisticamente altas (perfeccionistas) para si mesmas e para os outros sofrem desapontamentos facilmente e se sentem incapazes de procurar ajuda em períodos de angústia. O desânimo crônico decorrente de problemas familiares (doenças graves, relacionamentos em conflito) ou financeiros deve ser percebido.
Existem fatores sociais e de longo prazo que devem ser trabalhados tanto pela família como pelo serviço de saúde: atendimento adequado de casos e determinação do grau de risco de suicídio em pacientes com alcoolismo, depressão, história familiar, esquizofrenia e transtorno bipolar; perda de parentes ou desapontamento nos negócios. Não é preciso ter receio em perguntar. A ideação suicida declarada é indicação de internação hospitalar e vigilância constante até o efeito pleno da medicação. A psicoterapia é fundamental é deve estar disponível. Este ponto é um passo que precisa ser dado: costumo dizer que precisamos atualmente ter a disponibilidade de psicólogos como temos de médicos nos serviços de saúde. Os números confirmam isso. O desafio nestas questões é enorme. Precisamos falar. Falar mais.
Quem a gente conhece
18/07/2009 - Eu conheço pouca gente. Esta é uma certeza maior em dias cada vez menores. Gostaria de conseguir apreciar por dentro mais pessoas, em suas nuances e gestos, sem demora ou intenção. Receio que uma vida seja pouco para tanta gente caber dentro da gente. Conhecer é entender, guardar e lembrar mais tarde.
Quem a gente vê todos os dias, já faz parte do cenário. Sentimos falta, de fato, quando não aparecem sem avisar. Nossos colegas, e amigos no trabalho, são vidas perto que se fazem sentir por força da obrigação. Devemos, então, aproveitar a oportunidade e não dormir no ponto com os olhos abertos.
Quem a gente conhece só de ouvir dizer, nem recordação pode ser. As pessoas precisam nos agradar ou machucar para serem gravadas em nossa memória. De outra maneira, pouco representam. De intenções escondidas e camufladas o inferno está cheio. Essa é que a verdade. Como bebês chorões, queremos tudo ou nada.
Quem a gente desconhece é conhecido por outro e por lá, adiante de onde alcançamos, faz sua história. Que até pode se cruzar com a nossa, por estas artimanhas da vida que só o destino explicaria. Se é que destino existe mesmo.
Quem gosta de aparecer é um corpo social maior que um corpo individual. Espaçoso que só vendo. Não dorme sem antes se pendurar no telefone ou em alguma sala de bate-papo na internet. Fala com muitos para ser lembrado por muitos. Não suporta o peso de quem é real, precisa de mais. Se há problema nisso, não importa. Sem neuras.
Quem um dia conheceremos está por nascer ou curtindo a vida longe da gente. Ou se esconde de mansinho bem do nosso lado e nem percebemos. O que está quieto pode romper o silêncio a qualquer momento. E todo o silêncio é ruído em estado de gestação.
Tem pessoas que nunca chegamos bem conhecer, plenamente quero dizer. Estão prontas a nos surpreender negativamente. Com uma traição, mentira, falsidade, mudança de hábitos ou estilo de vida diferente daquilo que aparentava até ali. Viram a vida do avesso. Então que sigam seu caminho, boa sorte. Sigo pelo meu. O perdão ou o esquecimento são consequências distintas, com ou sem rancor.
Quem a gente conhece pouco, pode ter muito a nos completar, mesmo que na forma de um silêncio generoso. Todos têm algo de muito bom em si, pronto a se desenrolar diante dos olhos perplexos dos outros.
Quem a gente acha que conhece apenas através do que os outros nos dizem são fruto das fofocas e, como tais, sempre duvidosas. Raras vezes ouvimos fofocas que trazem ventos bons, elogiando ou enaltecendo alguém. Repare por você. Portanto, não dá para conhecer alguém assim. É nebuloso. Incerto.
Tem gente que sempre espera. Espera algo de alguém, menos de si mesma. Quer atenção, lembrança e colo. E isso os outros nem sempre descobrem em tempo.
Quem a gente tem ao lado que afugenta nossa aflição, nos comove. Aflição de ser e não o ser outro. Aflição de também ter medo de perder as coisas há muito já vividas em espaços íntimos.
Então, conhecer é bom. Mal ou bem. Intenso ou superficial. Porque pior que não saber contar histórias, é não ter alguém a quem as contar.
A normalidade da dificuldade
11/07/2009 - Nos dias de chuva gosto de voltar a ler obras que foram especiais em minha formação. Ao buscar por Corpo de Baile (1956), reli uma sequência de frases que eu havia sublinhado quando estava no antigo segundo grau. Era uma técnica que ensinavam para orientar a interpretação dos textos. O genial escritor e também médico Guimarães Rosa disse: “O animal satisfeito dorme”. Acrescento: dorme bem. Espiando atrás dessa aparente obviedade está um dos mais importantes alertas contra o risco de cairmos na monotonia durante os dias. Durante a existência. Por isso, quando alguém diz que está muito satisfeito conosco ou com nosso trabalho, é um alarme. Isso jamais é um sinal de que, então, podemos nos recostar na cadeira e cochilar. Quando estamos satisfeitos nos acomodamos, nos rendemos e nos imobilizamos.
É a angústia que nos faz criar. Que nos empurra adiante. Porque queremos construir, refazer se necessário, olhar de outro jeito se for preciso para sermos melhores. Esta é a mola do prazer. Não nos leva à satisfação confirmar a vida a todo instante, mas sim uma salutar insatisfação. As aparentes e óbvias diferenças encontradas no cotidiano são saudáveis e necessárias, pois do contrário nunca precisaríamos do esforço e da tolerância.
No ambiente de trabalho tem de tudo um pouco. Dias de paz e amor, outros de nebulosidade e enfrentamento. Entre colegas ou com a chefia. É preciso, não devemos estranhar isso. Precisamos ver que aceitar as tensões intermediárias é um atributo rico em nossa personalidade. Um inestimável valor nos relacionamentos. Portanto, nada de desespero diante dos problemas. Nada de pensar que se tudo não for rapidamente realizável o será impossível. Devagar nas pedras pessoal!
Como a gente não nasce pronto, precisamos descobrir caminhos. Nascer sabendo é uma limitação porque obriga a apenas repetir e, nunca, a criar, inovar, arriscar, errar, refazer e modificar aquilo que queremos. Meu filho de seis anos anda zangado porque não nasceu sabendo ler. Fica irritado e esbraveja diante do fato de que precisa fazer os temas da escola, várias vezes, para desenvolver uma habilidade mental que ele ainda não sabe o quanto será importante. Que dá trabalho, claro. Que exige dele um esforço diário, mas que de outra forma não seria possível. Um dia desses perguntou: “Porque preciso fazer este tema? Eu queria já saber isso.” Respondo que se ele já soubesse isso não haveria graça em poder ir à escola, descobrir amigos, sujar-se na pracinha, desenhar e pintar monstros e beber todinho na hora do lanche. Um custo pequeno diante do grande resultado que se aproxima.
É a relação entre o “sem” e o “nada. Sem poupar, nada teremos. Sem dificuldade, nada de normal. Sem dieta e exercícios, não emagrecemos. Sem cansaço, não descobriremos o prazer do descanso. É simples e óbvio, mas muitas vezes batemos cabeça por não lembrar. Demora um tanto, e alguns tropeços, para entender tudo isso. Aliás, como falou o mesmo Guimarães, “Não convém fazer escândalo de começo; só aos poucos é que o escuro fica claro”.
Lagartear
04/07/2009 - Sucintamente, essa nossa gíria, significa expor-se ao sol sem pressa. Preguiçosamente, de costas para o relógio, com a intenção de curtir o calor proporcionado pelo sol nos dias frios. Não sei a razão de estar associado à preguiça, talvez esta conotação pejorativa tenha sido dada por algum viciado em trabalho que não se permite descansar e que vai enfartar mais cedo. E isso não é rogar praga não, é constatação científica.
Quando criança me sentava no barranco de terra para chupar cana e lagartear com a gurizada enquanto nossas pernas descansavam das empreitadas com a bola. Nosso campinho de futebol improvisado era no terreiro de estender roupa do grande quintal da casa da Nona. Entre as taquaras usadas para levantar o arame mais longe do chão, os dribles eram mais divertidos. A tia Landa vez ou outra gritava: “Não encostem essas mãos sujas nos lençóis!” O tema da escola podia esperar até a noitinha. Brincar solto era prioridade em um tempo sem violência. Nossos inimigos eram mais lúdicos: as primas. Minhas primas subiam no galinheiro com minha irmã e lá ficavam longe de nossas provocações. Eu sempre fui terrível com elas, admito. O telhado do galinheiro era reduto delas, quase um relicário. Eu, e os meninos da vizinhança, fazíamos fila no barranco e com canivete descascávamos os caules e colmos da cana para mascar o suculento e doce conteúdo. O Rosi nunca gostava do assovio que chupar cana provoca. Ele era diferente de todos os outros e afirmava que sentia arrepios. Preferia então comer bergamotas. Eu nunca me importei com os dedos sujos e a terra sob as unhas. As lombrigas também devem ter uma chance para reprodução. O que seriam delas sem os deslizes de higiene praticados no universo infantil? Pequena transgreção. Esqueçam essa.
Durante as estações do outono e inverno ficamos mais encolhidos e nossos músculos contraem-se mais para manter nossa temperatura corpórea. Alguns dias de frio e chuva, com neblina até quase meio-dia, até é bom. Eu disse alguns. Porque mais que dois ou três já enjoam. Quando os raios de sol abraçam a todos e as roupas, travesseiros e cobertas estão nos varais, nosso corpo também pede um calor seco. Que relaxa, melhora nossa circulação e traz conforto. Diferentemente do lagarto, que não tem controle da temperatura corporal, conseguimos nos adaptar à qualquer temperatutra ambiental, mas a grande maioria de nós prefere o calor. Por quê? Lembre-se que estivemos nove meses no resguardo inimitável de um útero e qualquer situação que nos remeta a alguma lembrança, mesmo inconciente, nos proporcionará prazer e melhorará a função cardíaca. É um dos motivos e mais uma vez, um brinde à Criação!
O dia da semana que tem cara de lagarto é o sábado. À tarde. Eu acho isso. Como viemos com a aceleração da semana, este turno é a primeira oportunidade da semana para soltar as rédeas, desabotoar as roupas, soltar o cinto, deixar de usar aquele sapato que só aperta o pé. É dia de colocar uma roupa com elástico na cintura e um chinelo velho. Para ser feliz tranquilamente. De mansinho. Sob o sol, como um réptil lagarto.
Mais que cara ou coroa
27/06/2009 - Ao acordarmos, sempre somos o mesmo ser, comandado por uma intrincada relação entre partes, no qual cérebro, mente, músculos, órgãos e comportamento se encaixam e vivem negociando um acordo coletivo. É bem assim, somos o resultado de um acordo entre nossas inúmeras e muito diferentes conexões. O que aparece a cada novo dia é sempre a mesma estrutura, o mesmo arcabouço sobre o qual imprimimos nossa personalidade. Mas então quer dizer que somos sempre iguais todos os dias dessa vida? Obviamente que não, nossas relações com os outros provam isso. Nossa base é a mesma, mas mudam os adereços. Somos aquilo que demonstramos ou escondemos em nossos relacionamentos, nos quais alguns adereços podem ser nosso temperamento, humor, afeto, por exemplo. E a cada nascer do sol podemos nos sentir e demonstrar diferentes. Tem dias que levantamos dispostos e sorridentes, no entanto, em outros, nem a melhor das piadas nos alcança.
Vejamos algumas possibilidades de expressão de nosso organismo, comandadas pela mente que se expressa através de um comportamento. São lados de uma mesma moeda, jeitos que assumimos em fases que vão e vem.
Todos nós temos períodos em que somos resvaladiços, ou seja, passamos de leve pelas obrigações, na tangente. Queremos mesmo é despistar. Saímos de fininho para passar bem, afinal de contas, não é sempre que conseguimos demonstrar responsabilidade, afinco e seriedade diante da vida. Nunca seremos tão certinhos e perfeitos. Não suportaríamos por muito tempo. Pecar é humano, dizem.
Em outras horas estamos emotivos e nos derretemos como manteiga ao sol. Parece que tudo na vida tem uma carga emocional grande e acabamos por nos identificar. Recordamos o passado com freqüência, com toques de melancolia. É suspiro aqui, saudade lá. Como se houvéssemos ingerido uma poção de sensibilidade que fizesse a razão tirar férias de dentro da gente.
Quando acuados pela vida, ficamos esmorecidos e preferimos o isolamento como defesa. Entocamo-nos com nossas confabulações e nos demos por vencidos. Ficamos blindados, duros e não queremos saber de papo. Perdemos a essência da motivação, o desejo. “Cansei! Esqueçam-me.” É uma típica afirmação de alguém que esgotou suas boas intenções e coloca-se de lado dos acontecimentos. Não está muito a fim de lutar, vai dar um tempo.
Há os otimistas, para quem não há pedra que não possa ser removida neste mundo sob o céu. Com nosso humor em alta, quando otimistas nossa realização pessoal também é maior. Acreditamos mais em nosso potencial e no lado bom dos humanos e da vida. Quanto mais tempo estivermos nesta fase, mais realizadores nos tornamos.
Também passamos por fases nas quais somos completos inocentes, diminuindo o grau de exigências e acreditando em tudo que ouvimos, lemos e vemos. Ficamos na posição de absorção irrestrita, sem censura própria e aceitamos facilmente qualquer idéia diferente. Nesse estado, corremos o risco de sermos levados pelos outros ou manipulados por alguém que esteja em uma fase de comandante.
Nos dias em que lideramos reformas, negócios, reuniões nossa energia está em alta e somos comandantes (ou líderes). Preferimos ficar na dianteira, mesmo que tenhamos que puxar uma tropa toda que não está afim. Costumamos inclusive nos indignar com que não quer acompanhar nosso pique, por estar resvaladiço, acuado ou bronqueado. Realizamos-nos quando percebemos que as coisas estão andando e que contribuímos para isso acontecer.
Bronqueados são pessoas que estão passando por etapas de mau-humor. O filtro entre a realidade e a interpretação da mente anda com problemas e só enxerga defeito. Zangados e aborrecidos costumamos desconfiar de tudo e todos. Até da sombra muitas vezes.
Podemos em um mesmo dia vivenciar diferentes comportamentos como os citados, sem problemas. No final das contas, permanecerá mais intenso um tipo e é através dele que os outros nos classificarão por um determinado tempo.
Não haverá máquina capaz de simular aquilo que nós humanos sabemos sentir e viver.
Realmente, somos fantásticas engenhocas.
Batata doce com nata
20/06/2009 - Um deleite. Uma glória salivar. Assada no calor do forno à lenha, a batata doce vai ganhando maciez lentamente sem perder sua tenra umidade. Um aroma de lar invade a casa e o aconchego é sentido logo em seguida. Também por isso gosto do inverno. Nosso apetite está mais aguçado, nossa criatividade culinária mais forte e nossas memórias também. Trago comigo a recordação de comer batata doce com nata quando ainda era um rebento que não usava mais mamadeira. Com o uso das mãos, minha mãe abria a batata e colocava as partes em uma tigela. Da geladeira vinha a seguir o vidro grande de nata, daqueles com tampa de rosca metálica. Sem dó nem piedade, a colher mergulhava profundamente e trazia em seu colo o creme lácteo que era estendido majestosamente sobre o tubérculo ainda fumegante. Às colheradas, e sem medo de ser feliz, meus olhos confirmavam a propaganda. Uma delícia, com cara de família, gosto de cultura, aroma de colônia e sabor alemão. Tão simples quanto gostoso e natural.
As crianças de hoje torcem antecipadamente o nariz diante de uma proposta destas. “Tô fora !”, como diz minha filha. A geração FR (fritura com refri) quer facilidade, inclusive no paladar. E a indústria sabe disso, porque incrementa artificialmente todos os alimentos industrializados com condimentos que facilmente são percebidos, sem muita força na degustação. Vejam o exemplo dos “chips”. E os filhos crescem, em sua maioria, selecionando cada vez mais aquilo que se permitem experimentar. Muitos não se dão ao prazer de experimentar e depois julgar se gostam ou não; já avisam antes que não querem. Apenas os olhos não são suficientes para saborear um alimento. Mesmo com exemplo em casa, na vida externa as opções de calorias vazias são tantas que a criançada se lambuza e o paladar se perverte.
Não sou do tempo no qual as crianças levavam como merenda para a escola um ovo cozido. Para tanto não. Meu pai fala disso. Porém, minha geração adorava uma torrada. Daquelas feitas na torradeira de ferro sobre o acendedor do fogão a gás. Logo cedo, antes de sair de casa, o pão tostado tinha cheirinho inconfundível. Depois o lanche era embrulhado em guardanapo de pano e cuidadosamente aninhado no fundo da lancheira. A cada remexer nos cadernos, o aroma invadia minhas narinas. Obviamente, no instante do recreio, o lanche já estava frio, mas era bom igualmente. A cada dia, migalhas de pão ficavam escondidas no fundo da mochila, como testemunha viva de uma época na qual merenda era algo mais sólido e substancioso que atualmente.
Para acompanhar o caminhar dos anos, bem que podíamos resgatar um pouco do tradicional. Seria “pagar mico”, como diz a galera hoje, não comprar refrigerante no bar da escola e levar de casa uma termolar com suco de mamão, por exemplo? Precisam as crianças comer sempre uma sobremesa na escola, como chocolate e sacolé? Ops! Caiu algo aqui... Por que algumas cantinas de escola vendem sacolé? A vida está aí, dirão alguns. Entendo. Mas quem vai dar o exemplo? Como pai, sei que erro muito nesta questão, do contrário talvez não fosse pai, mas um ditador doméstico. A gente vai aprendendo com os erros. Contudo, sou daqueles que pensa que na família e na escola quanto mais pudermos manter o controle dos modismos, melhor.
Qual a melhor batata doce? Eu gosto daquela com polpa amarela.
O amor sentimento
13/06/2009 -
Teu rosto como um templo
Voltado para o oriente
Remoto como o nunca
Eterno como o sempre.
(Vinícius de Moraes)
Não imagino a que horas deste sábado estás lendo esta coluna. Espero que mais tarde que o habitual, pois desejei que tu tivesses vivido uma noite especial ontem. Um doce sabor ainda pode ser sentido na boca e o arrepio e o perfume em sua pela denunciam: é o amor.
Nós nascemos predestinados a amar, porém para um tipo de amor diferente daquele que se comemora dia doze de junho. O gostar como filho logo foi acrescentado ao gostar como irmão, como sobrinho, neto e depois como pai, genro e tio. Se espremendo no intervalo destas duas dimensões, perene que é, está uma forma de amar mais sensível e geradora de prazer – o amor da carne, do toque, da falta, do sofrimento e do orgasmo. Vivemos em um tempo no qual a conjugalidade está em queda, sob o domínio da sexualidade. No entanto, quanto mais conseguirmos conter nossos impulsos instintivos e direcionar nossa força para o afeto, maior será o significado em nossos relacionamentos. O amor que namora é um dos maiores desafios que um ser humano enfrenta no convívio social. O desafio não é gostar; bom é gostar mais a cada dia.
Quando a gente gosta desenvolvemos uma emoção e um sentimento. A emoção é algo intenso, abrupto e inovador que irrompe em nossa vida. Para ela, só existe o momento. O agora. Ela focaliza nossa atenção para algo ou alguém por determinado tempo, que depois diminui em intensidade. A paixão e a excitação são emoções. Em outra medida, o sentimento é um aprendizado para toda a existência, pois é o que fica em nossos valores e que modelam nosso comportamento afetivo. Quem é impulsivo está dominado apenas pelas emoções, por exemplo. São os sentimentos que mantém a solidez e a razão.
O amor é algo que se aprende. Se você sente alguma coisa, deixe que os outros conheçam o seu sentimento. Sim, porque o amor é como um espelho. Ele sempre volta, completa, modela e conforta. Pode também machucar, e como pode. Frustrar alguém no amor é a mais terrível decepção; é uma pedra eterna para a qual não há compensação, na vida ou na eternidade.
Vivenciar o amor exige vontade. Foi Gandhi que disse que não existe amor onde não existe desejo. Tudo começa por uma forte emoção que queima, angustia, sufoca e parece não sair de nossos pensamentos. Que seja sempre assim. Infeliz daquele relacionamento que não passou por isso, pois daí foi banalizado, apressado ou frágil. Passada esta fase, é o desejo de querer mais que nos move para o sentimento de que precisamos de alguém ao nosso lado. Alguém que deve estar todos os dias esperando nosso olhar, nossa ação e nossas dúvidas também. Está aberta a temporada do vazio amoroso, aquela sensação de que não parecemos mais sermos nós mesmos quando estamos longe de quem amamos. Então movemos tudo e todos para que não exista mais dois. Depois de tudo, queremos ser um, para junto sofrermos, junto existimos e descobrirmos a santa felicidade.
Amar a si próprio e alguém significa interesse, preocupação e respeito genuínos. Um punhado de filosofia, pitadas de psicologia, doses de economia e conhecimentos de biologia. Se fosse fácil, de nada resolveria. Até rimou, culpa de ontem à noite.
Consultas modernas
06/06/2009 - Todos conhecem a dinâmica habitual de uma consulta médica: uma sala, no mínimo duas pessoas, uma conversa com porta fechada e um problema para ser resolvido. O mundo que fique do lado de fora, no corredor ou na rua, pacientemente. É preciso que haja tempo, diálogo, espaço para dúvidas, respostas e orientações. Um ser, seus valores, sentimentos, seu corpo e sua história se mostram para um profissional que depende de conhecimento e habilidade de comunicação para captar aquilo que seja de mais relevante em cada caso apresentado. Basicamente, esta é a rotina. Ou melhor, era! Não o é mais. Há um novo elemento na cena, um novo ator que oscila entre ser o principal ou coadjuvante: o toque do celular.
Primeiro exemplo:
- Há quanto tempo tens esta dor de cabeça? Pergunta o médico.
- “Fada, fada querida. Dona da minha vida...” (irrompe o toque). Risos.
Segundo exemplo:
- Respire profundamente pela boca. Orienta o médico na ausculta do pulmão.
- “Iuuu... Iuuu... Iuuu...” É uma sirene de ambulância em disparada. Pára tudo, risos.
Terceiro caso:
- A senhora tem estado triste na maioria dos dias nas últimas duas semanas? Interroga o profissional.
-” Entre tapas e beijos, é ódio e desejos, paixão e loucuras...” A música que sai de dentro de uma bolsa no colo da paciente invade a sala. Risos.
Estas situações aconteceram de fato e ilustram uma dinâmica moderna com diferentes desfechos. Há casos nos quais o paciente sente-se embaraçado e desliga imediatamente o aparelho de telefonia móvel. Em outros, esquece que está no meio de um momento importante para ele e seu médico e, simplesmente, com a maior naturalidade, atende a ligação: “- Alô! Sim, sou eu. Estou em uma consulta agora. Vou para a loja só de tarde. Avisa o gerente, tá bom. Hoje à noite podíamos ir comer uma pizza com as outras gurias, que tal? Tá bom, vê isso e me liga mais tarde, tchau.”
E eu ali, estupefato, esperando. O médico não é, e nunca foi, o centro do mundo. A questão aqui é outra. De educação, de comportamento social e de eleger prioridades pessoais. E ainda tem a tão judiada liberdade individual em questão, que vai até onde começa a... Bem, deixa isso de lado. Toda a concentração que cada caso merece precisa ser respeitada e valorizada por ambas as partes. Também não pode o profissional desrespeitar o momento e atender o seu telefone como se nada estivesse acontecendo. Só urgências, ressalto. E não custa avisar com um pedido de desculpa.
No início ficava intrigado, mas ultimamente tenho que me divertir diante das inusitadas situações. Sabe quando as coisas acontecem justamente quando elas não deveriam acontecer? Pois bem, é o caso da convivência entre o aparelho celular e os momentos tradicionais da vida. Em consultas, a distração do foco pode comprometer o vínculo e a resolutividade necessários, mesmo que levemente. Em tempos de pressa e aceleração social, cabe ao indivíduo saber pisar no freio e escolher momentos só para si, sem respingos externos.
Meu irmão, granjeiro que é de profissão, tem em seu celular, como toque de aviso de chamada, um som absolutamente engraçado: um histérico grunhido de porco. Aqui em casa, muitas vezes damos gargalhadas quando o berro animal se intromete nas festas, conversas e momentos tipicamente familiares. Mas aí é o lado divertido e faceiro da coisa. Só espero que ele desligue o som antes de ir consultar. Espero. Imagina se alguém ouve no corredor o tal grunhido vindo de dentro da sala de um dentista ou de exame médico.
Imaginem a cena...
Vejam como são as coisas
A demanda terminará em risos e tu te irás absolvido.
Horácio
30/05/2009 - A curta história contada por Êrica* parecia caminhar para uma fila de “senões” e crises de instabilidade de humor e lágrimas. Para algumas pessoas, a vida nem sempre é generosa como deveria ser. Viúva recente, escapou ilesa de um acidente de trânsito, sua filha desmanchou o casamento de anos, o neto precisa de seus cuidados contínuos devido a uma doença crônica, seu pedido de aposentadoria está na fila de espera judicial, sofre com dores intensas e freqüentes devido a duas hérnias de disco vertebral e, ainda assim, seu bom humor mostra-se inabalável. Ela é uma paciente vencedora, apesar de tantas forças que a empurram à beira do precipício existencial. Entenderia caso estivesse na escuridão. Costuma dizer repetidas vezes: “Eu me arranjo ao meu jeito.” Uso alertá-la para estar atenta para não deixar escapar uma ponta que possa mais tarde desfiar seu todo. A cada consulta, aprendo com ela a ser mais forte comigo e com meus pacientes, pois sua robustez psíquica é digna de registro, apesar do risco de adiar um diagnóstico.
Bem diferente, Jacinta* é mais jovem. Trabalha com carteira assinada há anos na mesma empresa, faz faculdade no turno da noite e mora com o esposo em casa própria. Tem plano de saúde privado, mas consulta por opção na Unidade do PSF. Não tem filhos. A cada nova síndrome, seus exames laboratoriais não encontram eco. Até porque nem tudo tem registro. Quem espera exatidão não pode atender pessoas, deve procurar outro ramo. Suas consultas são uma pulverização de lágrimas, queixas e sintomas mal definidos. Posso detectar o grau de uma anemia com um hemograma, mas não há um medidor de ansiedade ou de medo. Daí a subjetividade envolvida requerer máxima atenção e discernimento adequados. Jacinta sofre com crises de pânico e depressão. Reclama de não entender o porquê, pois desfruta de apoio familiar e material de que necessita. Sabe se explicar em detalhes. Sofre por estar doente e também porque não se entende. Procuro ajudá-la explicando rotas de saída e prescrevendo medicamentos que aliviam seu sofrimento. A dor psíquica é a mais cruel para qualquer ser humano. Jacinta sente-se vulnerável às frustrações mínimas e perde o autocontrole emocional com um pingo d’água, que dirá com um copo. Para ela, é oito ou oitenta. Não permite existir quarenta.
Estas duas histórias têm um ponto de contato: a lucidez de ambas. O desconcerto da vida só pode ser enfrentado quando são reveladas. Vejam como são as coisas, quem se maquia socialmente ou se esconde (ou faz de conta) não abre caminho para a solução. Esta, aliás, não envolve o desaparecimento absoluto daquilo que é o sujeito, mas significa a compreensão daquilo que somos, de como sentimos, do que precisamos e da ordem natural das coisas.
Se pudesse, colocaria Êrica e Jacinta frente-a-frente.
Se o homem é produto do meio, como afirmou o Iluminismo, à medida que o mundo ao redor progride, também os homens ampliarão a sua competência. Cada um ao seu tempo. Sem culpa ou culpados. Sem vencidos e vencedores. Êrica está adiante, veloz. Jacinta, parte agora. As duas carregam um pouco de cada um de nós em diferentes momentos de nossas histórias.
Sim, não parecer haver dúvida quanto a afirmação que diz que cada ser humano é uma pequena sociedade.
* nomes fictícios.
Vejam como são as coisas
A demanda terminará em risos e tu te irás absolvido.
Horácio
30/05/2009 - A curta história contada por Êrica* parecia caminhar para uma fila de “senões” e crises de instabilidade de humor e lágrimas. Para algumas pessoas, a vida nem sempre é generosa como deveria ser. Viúva recente, escapou ilesa de um acidente de trânsito, sua filha desmanchou o casamento de anos, o neto precisa de seus cuidados contínuos devido a uma doença crônica, seu pedido de aposentadoria está na fila de espera judicial, sofre com dores intensas e freqüentes devido a duas hérnias de disco vertebral e, ainda assim, seu bom humor mostra-se inabalável. Ela é uma paciente vencedora, apesar de tantas forças que a empurram à beira do precipício existencial. Entenderia caso estivesse na escuridão. Costuma dizer repetidas vezes: “Eu me arranjo ao meu jeito.” Uso alertá-la para estar atenta para não deixar escapar uma ponta que possa mais tarde desfiar seu todo. A cada consulta, aprendo com ela a ser mais forte comigo e com meus pacientes, pois sua robustez psíquica é digna de registro, apesar do risco de adiar um diagnóstico.
Bem diferente, Jacinta* é mais jovem. Trabalha com carteira assinada há anos na mesma empresa, faz faculdade no turno da noite e mora com o esposo em casa própria. Tem plano de saúde privado, mas consulta por opção na Unidade do PSF. Não tem filhos. A cada nova síndrome, seus exames laboratoriais não encontram eco. Até porque nem tudo tem registro. Quem espera exatidão não pode atender pessoas, deve procurar outro ramo. Suas consultas são uma pulverização de lágrimas, queixas e sintomas mal definidos. Posso detectar o grau de uma anemia com um hemograma, mas não há um medidor de ansiedade ou de medo. Daí a subjetividade envolvida requerer máxima atenção e discernimento adequados. Jacinta sofre com crises de pânico e depressão. Reclama de não entender o porquê, pois desfruta de apoio familiar e material de que necessita. Sabe se explicar em detalhes. Sofre por estar doente e também porque não se entende. Procuro ajudá-la explicando rotas de saída e prescrevendo medicamentos que aliviam seu sofrimento. A dor psíquica é a mais cruel para qualquer ser humano. Jacinta sente-se vulnerável às frustrações mínimas e perde o autocontrole emocional com um pingo d’água, que dirá com um copo. Para ela, é oito ou oitenta. Não permite existir quarenta.
Estas duas histórias têm um ponto de contato: a lucidez de ambas. O desconcerto da vida só pode ser enfrentado quando são reveladas. Vejam como são as coisas, quem se maquia socialmente ou se esconde (ou faz de conta) não abre caminho para a solução. Esta, aliás, não envolve o desaparecimento absoluto daquilo que é o sujeito, mas significa a compreensão daquilo que somos, de como sentimos, do que precisamos e da ordem natural das coisas.
Se pudesse, colocaria Êrica e Jacinta frente-a-frente.
Se o homem é produto do meio, como afirmou o Iluminismo, à medida que o mundo ao redor progride, também os homens ampliarão a sua competência. Cada um ao seu tempo. Sem culpa ou culpados. Sem vencidos e vencedores. Êrica está adiante, veloz. Jacinta, parte agora. As duas carregam um pouco de cada um de nós em diferentes momentos de nossas histórias.
Sim, não parecer haver dúvida quanto a afirmação que diz que cada ser humano é uma pequena sociedade.
* nomes fictícios.
Sobre o saber envelhecer e o correio sem selo
23/05/2009 - Já verificou hoje sua caixa de um tipo de correio que não usa selo? Refiro-me ao e-mail, a carta dos dias atuais. Se ainda não, verás que pelo menos um arquivo com algum tipo de mensagem ou “corrente” deve estar lá te esperando. De conteúdo poético, musical, político, filosófico, humorístico ou erótico, elas povoam a Internet. Já são uma epidemia (com o perdão da palavra); contaminam qualquer frequentador da rede. Entre todos os tipos de mensagens, as de cunho autoajuda e motivação dominam. Mas por quê? Palavras bonitas sobrepostas a lindas imagens e embaladas por músicas melódicas apontam para uma pista: de notícia ruim estamos fartos. Basta assistir a qualquer telejornal noturno. Querer distrair-se com algo leve e que invoque nossa dimensão humana tem um lado lógico, pois andar em círculos nada adianta. Cara feia dizem ser fome. Todos esperamos que o Bem sempre vença no final, só não sabemos “quando” este final vai acontecer diante de algumas barbaridades que dividem a cena cotidiana conosco. Mas, se há tristeza, que ela por favor vá embora, como diz aquela música.
Quero partilhar com meus leitores parte do conteúdo de uma mensagem que recebi de Noemia, uma leitora assídua e crítica pertinente. Em tempos de tanta tecnologia da saúde, o argumento da mensagem trata do envelhecimento que é de nossa conta. Aquele que está ao alcance de nossa atitude, para ser mais preciso. Geralmente, deleto a maioria das mensagens que recebo, pois há muito lixo eletrônico. Só abro arquivos com remetentes identificados e conhecidos, depois do antivírus fazer uma varredura. Há bons textos, porém nem sempre a autoria está correta. Já li texto original do filósofo francês Sartre divulgado na Internet como se fosse do crítico Arnaldo Jabor, obviamente sem o consentimento deste. Alguns internautas inventam falsas autorias para aguçar a atenção de futuros leitores ou para disseminar vírus.
Chega de rodeios. Vamos à mensagem:
Remédio para saber envelhecer
“Envelhecemos quando nos fechamos a novas idéias, quando deixamos de lutar.
Na juventude, aprendemos; com a idade compreendemos.
Envelhecer não é preocupante.
Ser olhado como velho é que é.
Também é passar da paixão à compaixão.
Pessoalmente, não tenho idade: tenho vida.
A passagem do tempo é uma conquista e não uma perda.
Precisamos entender que a escola é a vida; o tempo, o mestre.
Nos olhos do jovem arde a chama.
Nos do velho brilha a luz. “
(autor desconhecido)
Vez ou outra arquivo mensagens. Esta guardei. Penso que ela toca em um ponto importante: a valorização do momento, daquilo que está de fato diante de nós e não daquilo que está por trás de nossos desejos. É a realidade que nos comanda e é ela que nos trará satisfação e prazer em sentir felicidade. Os sonhos são combustíveis, mas não veículos. Lembremos disso sempre. Bom final de semana.
Não disse adeus...
18/05/2009 - Aceitemos o fracasso. Quando ocorrer, não nos incomodemos. Ele cria o desejo, fazer boa coisa tem que estar bem conjugado com o fracasso.Nossa alma se revela para nos empurrar para fora do fracasso, usando-se de desejos. A satisfação permanente e o sucesso ubíquo são chatos. Tudo que nos tornou exemplares se desfaz em segundos, cuidado portanto.
A vida , e todos ao redor, nos cobra obsessão. O verbo é “dever”.
Devemos ser bons pais. Precisamos acertar, não há margem de erro permitida. Se fomos maus alunos, todos saberão. Caso quisermos sair da rotina e quebrar costumes, seremos condenados. E os acusadores inventaram palavras em nossas bocas para ratificar o que pretendem. A tão sonhada liberdade não pode abrir tanto as asas sobre nós, está doente. Possivelmente um reumatismo ou artrose que impede a amplitude de seus movimentos. Neste ínterim, quem é mais velho costuma se julgar sabedor de tudo. Então pode, de um falso pedestal, julgar e erguer o queixo em sinal de soberba. Pura pantomima.
Devemos ser bons e mansos. Calados e diluídos. Nada destoante. Completamente oceânicos. Assim há ordem e o progresso estará garantido, como nossa bandeira diz. Pura visão positivista de mundo, que imagina que imprevistos são incômodos, que quando algo dá errado tudo está errado. Lorotas graúdas. Piada. Exercício de imaginação, pois a realidade teima e não se acomoda no brete.
E ainda perguntam o por quê de tanta gente usando medicamentos sedativos, ansiolíticos e antidepressivos. Ora bolas. Não nos façamos de inocentes. O que está aí também tem nosso jeito. Se há ajuda disponível, devemos usar quando necessário. Sem rótulos, por favor. A vida não é uma assembléia extraordinária com pauta em primeira e segunda chamadas. Tudo é relativo e nem sempre há tempo o bastante para uma decisão discutida razoavelmente. A maioria de nós agüenta, mas alguns jogam a toalha. A incidência de suicídio é crescente e anunciada. Somos muito exigentes, por isso. Somos detalhistas, por isso também. Queremos muito, ainda isso. Alguns estão na escuridão em termos de perspectivas, possivelmente. Nem todos aceitam a dor de ser quem são ou como estão. Nem todos. E quando há história familiar, basta um empurrão. Que está espiando atrás de uma depressão, do alcoolismo, da oscilação de humor bipolar ou de transtorno de personalidade nem sempre detectados.
Somos diariamente testados e, então surge, uma solidão exasperante que sufoca. Há uma carência de humildade. Se não me engano, foi São Tomás de Aquino que estudou bastante a humildade. Segundo ele, a humildade consiste em avaliar-se da maneira que corresponde à realidade.Muitos esperam pela magnanimidade. Magnanimidade é o vôo, a tendência do espírito para os grandes feitos . Assim, é magnânimo quem exige grandes coisas do seu coração e se torna digno delas. O magnânimo é em certo sentido “difícil de contentar”; não estabelece contacto com tudo o que lhe surge no caminho, mas apenas com o que é grande . Mais que tudo, a magnanimidade deseja as grandes honras. Quando estas não acontecem plenamente, a frustração abre um vazio psíquico e o sofrimento é tamanho que não cabe em lugar algum. A pessoa não vê outra saída que não seja a desistência de seu empoderamento. Fugir. Fugir das misérias da alma, da visão torpe da vida e da fumaça dentro de si. Algo queima. A idéia de que “quem fala não faz” não é verdadeira no que diz respeito às tentativas de suicídio. Evidência disto é que 60 a 70% dos pacientes que cometeram suicídio procuraram um profissional ( médico ou psicólogo) um a seis meses antes de se auto-aniquilarem.
Tema denso e vasto, merece mais discussão. Só não podemos fazer de conta que não temos nada com isso.
A criança que nos habita
“O modo-de-ser cuidado só
convence
quando se transforma em saga na biografia das pessoas.”
(Leonardo Boff)
09/05/2009 - Na intimidade das famílias há uma figura de cuidado. Quem irradia o cuidar de maneira privile-giada: nossas mães e as mães de nossas mães, as avós e nonas. Não é preciso detalhar esta experiência, cada um tem ricas memórias guardadas. Ser mãe é mais do que uma função; é um modo-de-ser que engloba todas as dimensões da mulher. A criança que habita em nós confirma isso, principalmente quando estamos na idade madura. Mesmo quem tenha perdido sua mãe, em momentos de perigo invoca a alma de mãe como referência de força. Tudo porque é através das mães que aprendemos a ser mãe de nós mesmos.
O encanto materno não se desfaz jamais, ele fica dentro da gente. Mas será que ele pode ser desfeito? Em um momento tão especial como o Dia das Mães, é preciso fincar a bandeira e também perguntar: Há mães que fazem mal para seus filhos? Depende. De modo geral as mães não prejudicam os filhos, mas, de modo particular, muitas o fazem. Apesar de o filhote teimar psiquicamente contra violên-cias para manter intacto um fio que seja de seu afeto à genitora, os casos de problemas neste campo são cada vez mais nítidos. A mãe é sempre a Mãe, porém nem sempre cuidadosa. Pode parecer estranho, mas o que interessa considerar é o exercício da maldade. Mas não se trata da maldade deliberada. Aí ficaria muito fácil diagnosticar a dinâmica familiar deturpada. Mas não, o que nos interessa é o exercício da maldade exercida velada e dissimuladamente. Esse tipo disfarçado de crueldade inclui toda espécie de chantagens emocionais, cerceamentos de liberdade, desrespeito, omissões e opressões que familiares dirigem uns contra os outros de forma surda. Pais e mães. Avós e netos. Tudo porque educar dá trabalho: exige paciência, persistência e, sobretudo, amor. Somos falíveis e os ruídos aparecem.
O velho chavão “faço o que é melhor para vocês”, que brota das palavras de todo pai ou mãe que se preza, poderia em muitos casos ser corretamente interpretado como sendo; “faço para vocês o que é melhor para mim”. Sendo a filha mulher, sobre ela recairão as fantasias e aspirações da mãe. A puberdade feminina vem acontecendo cada vez mais precocemente, e existem razões para crer que esse fenômeno possa ser devido à adaptação biológica aos anseios culturais; a mãe “fantasia” a filha de mocinha muito cedo, atribuindo a ela um papel de jovem. Isso pode favorecer uma precocidade biológica ao papel social atribuído pela família. Essa ocorrência é mais uma prova de que o filho acaba incorporando em sua pessoa o papel social a ele atribuído pela família.
Ao citar isso, para lembrar os dois lados da mesma moeda, reverencio aquelas mães que estão cientes destes descaminhos e preocupadas em serem, cada vez mais, melhores como pessoa e cuidadora. A boa mãe atual está informada, quer saber, admite erros, busca direitos, não suporta violência, fala, grita e provoca uma guerra, se necessário for, para defender a justiça para sua ninhada. A mãe verdadeira não varre a sujeira para debaixo do tapete. Ela quer resolver. Como tem múltiplas atribuições, cobra do parceiro coerentemente um compromisso de presença ativa dentro do lar. Por tudo isso, ela é, de fato, espetacular. Minha avó xingava meu paciencioso avô quando ele deixava o barco correr. Ela exigia mais ação. Ele, irretocável, só balançava a cabeça e repetia um sonoro “Hum...Hum...”. Como esquecer? Jamais. A gente se torne melhor também observando as mães da nossa vida.
Última chamada
02/05/2009 - Senhores e senhoras leitores de Três de Maio e região: última chamada para visitar a XI EXPOFEIRA. Por favor, sintam-se em casa. É um imenso prazer tê-lo como convidado especial desta grande festa que culmina com o aniversário de nossa bela cidade. Venham, venham todos!
Verbo Expor – apresentar (-se), pôr (-se) em evidência; colocar (-se) à vista. Tornar conhecido, revelar, apresentar, oferecer ou tornar visível a todos. (HOUAISS,2001)
Desde o dia 25 do mês passado, a 11 ª edição da EXPOFEIRA está à disposição da comunidade local e regional. Desta vez, cheirando a leite. Preciso parabenizar a Coordenação Geral pela escolha de uma feira temática ao invés de algo amplo. Temos uma economia diversificada, mas criar uma identidade a cada edição é clarear a ideia. Uma aproximação já aconteceu em edições anteriores quando o carimbo “do Agronegócio” foi muito bem colocado. Se não lambermos a nossa cria, quem o faria? Gostei e acredito ser este um caminho coerente a ser seguido. Cada município tem algo peculiar, sazonal ou contínuo, que pode e precisa ser evidenciado. No caso da edição de 2009, a feira também acerta em, além de fortificar raízes, fomentar um desenvolvimento “com a cara da mãe”. Sim, um futuro cada vez melhor nos espera no setor leiteiro e toda sua cadeia produtiva e tudo isso tem o nosso jeito, a nossa imagem e o suor de muita gente.
Para o comércio, a indústria e a produção do setor primário, acredito que deve dar um baita orgulho ser um expositor. Igualmente para os artesões. Você, ou sua empresa ali, sob os atentos e críticos olhares. Mas é igualmente seu, você fez, você ajudou a construir. Cada um como ator principal, independente do cargo ou tarefa realizada. O trabalho pode ser avaliado e os resultados não podem ser apenas contabilizados sob a luz do capital, mas da festa em si. Uma feira é uma grande e importante oportunidade para confraternizar, espiar aquilo que os outros estão fazendo, rever posições, enriquecer a gestão, melhorar a relação com parceiros e colaboradores e guardar tudo isso no bolso. Depois, quando o cansaço passar e a poeira baixar, colocar sobre a mesa, da casa do agricultor ou do escritório do grande empresário, e refletir. Pensar sobre destino, rumos e função daquilo que se produz. E como se produz. Para quem se produz e a pauta da reunião já fica cheia. Uma sensação de tarefa cumprida provoca prazer e isso já é bastante.
Para quem visita a feira, uma advertência: nestes dias ouvi de uma colega a frase “Feira é tudo igual.” Não concordo. Primeiro, porque nós não somos sempre os mesmos e nossa visão e expectativa mudam constantemente. Segundo, um dia não é como o outro e os esforços também não. Duas feiras, mesmo com os mesmos expositores, podem sair totalmente diferentes. Por último: diversão e lazer nunca são demais. Ficar em casa vendo os filmes requentados na TV, o Gugu ou o Faustão... Estes sim são sempre os mesmos. Eu fui à feira, até hoje, em duas oportunidades e em nenhuma delas vi as mesmas pessoas e as mesmas coisas. Basta querer enxergar.
De todos os ingredientes e soluções apresentadas, gostei principalmente do tema “leite”, da volta das Soberanas e da Festfeira (noites temáticas alemã e italiana). Todos estão de parabéns, pois imagino o quanto trabalhoso seja fazer tudo acontecer.
Última chamada: todos na Expofeira! Pegue o “trem andando” e ainda consegue sentar na janela para ver a vista. E lembrem que amanhã, bem cedo, temos uma aniversariante para parabenizar. Nesta data querida, muitas felicidades!
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